sábado, 17 de outubro de 2020

UM NOVO DESAFIO EM MINHA VIDA!!!


 Em 2012, exatamente 8 anos atrás, durante o meu estágio para a faculdade de Letras na Escola Alegria de Saber, na Unidade de Hekinan, conheci o professor de artes e desenhista Alexandre Funashima. Conversamos a respeito de muitas coisas: arte, literatura, música e comics. Eu havia acabado de lançar o meu livro “OBAKE, o Japão mal-assombrado” e estava com outros projetos em andamento. O Alexandre se interessou pelo meu material e eu lhe enviei alguns fragmentos de um épico que eu estava escrevendo na época: “Guerra dos Deuses”

Ele parece ter gostado do que leu e despretensiosamente ambos, cogitamos unir forças para criar algo reunindo as nossas habilidades. Eu, particularmente sou fã da arte fantástica que ele consegue desenvolver, seja no papel, seja em arquivos digitais e alguns de seus trabalhos já falam por si mesmos!!!





 O tempo passou, eu terminei a faculdade e nós tomamos caminhos diferentes... Depois de uns anos, estávamos cursando Inglês na mesma turma na Spring School de Kariya. A correria do dia a dia acabou por fazer com que deixássemos o velho projeto arquivado, até que no finalzinho de Setembro passado eu tomei coragem e liguei para o Alexandre. Marcamos um Domingo para que pudéssemos conversar sobre desenvolver uma série de estórias em quadrinhos. E foi aí que ele me apresentou a nova tendência entre os fãs ávidos por comics: o MOTION COMIC. Evidentemente que o formato tradicional de estórias em quadrinhos continuará firme e forte entre os mais puristas, mas o Motion Comic vem de encontro aos anseios e necessidades de uma geração que busca por formatos mais dinâmicos. É uma galera que quer absorver cultura e entretenimento enquanto pega o trem, ou o ônibus para o trabalho, ou para a escola através de um smartphone, ou tablet. Basta um fone de ouvido e conexão com a internet. 




Pois bem, depois de delimitarmos o projeto, eu comecei a escrever as adaptações do livro para o roteiro do nosso primeiro Motion Comic. Gravamos e editamos os áudios iniciais na N&F Studios e em seguida o Alexandre começou a trabalhar nos desenhos e na arte final. A cada fragmento que ele me enviava eu fui ficando cada vez mais entusiasmado!!! Sinto-me feliz de apreciar cada traço, cada detalhe e todo o capricho com que ele tem retratado cada conto.  

Para contar cada episódio, criamos um narrador misterioso, apaixonante e com muita personalidade, cuja origem será contada numa triologia fantástica que lançaremos logo depois de terminarmos a primeira temporada que está com previsão de ter cinco, ou seis episódios totalmente baseados no livro. O Contador de Histórias, apesar de sua aparência assombrosa, é alguém com sentimentos muito humanos e que, apesar de não poder interferir no desenrolar da trama, muitas vezes se envolve emocionalmente com situações repletas de ansiedades e medos, assim como outros sentimentos opostos como carinho, ternura e amor.

Como ele se tornou esse andarilho entre a vida e a morte? Tudo será explicado na triologia que contará a sua origem. 

Arte: Alexandre Funashima


Eu, particularmente estou muito feliz e entusiasmado por ter criado juntamente com o meu amigo Alexandre esse personagem carismático, um pouco perturbado, confesso, mas extremamente enigmático e que tenho certeza vai conquistar muitos fãs.


O roteiro inédito com um texto forte e ousado e a arte incrível do Alexandre Funashima eleva a experiência do Motion Comic (quadrinho em movimento) a um nível que não deixa absolutamente nada a desejar para os bons conteúdos do gênero!!!   

O Alexandre então sugeriu que lançássemos o primeiro episódio no Youtube no dia 31 de Outubro, justamente no dia de Halloween!!!

https://www.youtube.com/channel/UCnywHsQ_ID1Np46yb2Vcedg

https://www.youtube.com/watch?v=kxxvwrTfHik  

https://www.facebook.com/obakecontadordehistorias/


Eu sou suspeito para falar, mas as semanas que trabalhamos exaustivamente para produzir cada episódio, tenho certeza que valerão muito à pena!!!

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Verde, Amarelo e Vermelho

Foto: banco de imagens do Google


VERDE, AMARELO E VERMELHO

Depois da última eleição para presidente o Brasil estava rachado ao meio. Os apoiadores de centro haviam sumido das discussões e a polarização ficara mais aterradoramente crua, agressiva e até irracional por algumas vezes. Vestido com a camisa da seleção brasileira, Agnaldo, bolsonarista ferrenho, já havia decorado todos os argumentos anti-esquerda que lhe vinham à cabeça. Depois do divórcio costumava ocupar sua mente com seu negócio e nas horas vagas criava e compartilhava posts de apoio ao governo nas redes sociais, além de atacar qualquer manifestação de esquerda que aparecesse em sua timeline. Trinta e oito anos, portador de um revólver calibre trinta e oito, ele fazia a pose dos apoiadores da revogação do estatuto do desarmamento simulando uma arma com o dedo indicador. Acostumado com a violência de São Paulo, sua empresa já havia sido assaltada algumas vezes. Estava se preparando para participar de uma manifestação pró governo na Avenida Paulista. Evidentemente ele não levaria sua arma, mas a ideia chegou a parecer-lhe tentadora. Músculos trabalhados por anos de maromba e língua afiada para desacatar qualquer esquerdista cretino que lhe aparecesse pela frente. Para ele, o que importava era lutar contra os grupos demagogos que haviam jogado o país num mar de corrupção e numa crise que parecia irreversível. O Brasil, além de todas as dificuldades que se multiplicavam, ainda tinha que enfrentar a monstruosa pandemia de Corona vírus que havia infectado o mundo inteiro e avançava numa onda gigantesca de medo, dor, sofrimento e morte. Para Agnaldo era seu dever sair para as ruas, mesmo com um vírus assassino entrando furtivamente pelas narinas das pessoas. Os canos dos ônibus e metrôs, normalmente xexelentos, ofereciam suporte para que os passageiros se agarrassem a eles firmemente. Também haviam os botões dos elevadores, os corrimãos das escadas rolantes e os descansos de braço dos diversos assentos disponíveis em todos os lugares. Tudo aquilo era ambiente propício para a contaminação silenciosa e mortífera. Nada daquilo importava para ele, pois ele deveria atender ao chamado do “Messias”. Teria que percorrer um longo caminho, mesmo contrariando normas óbvias de segurança. “Fique em casa” diziam as campanhas, mas o único homem que ousou enfrentar a corrupção e o sistema tinha o seu apoio incondicional, mesmo que houvessem denúncias de supostos envolvimentos de pessoas ao seu redor em esquemas de corrupção, mesmo que ele não fosse bom com as palavras e tropeçasse nelas e atropelasse o bom senso, mesmo que o seu discurso fosse permeado de palavras chulas que normalmente não são usadas em discursos formais, ainda assim, Agnaldo o carregaria nos ombros se preciso fosse. Morador da Zona Norte, ele tinha que pegar o Metrô na Estação Santana, fazer baldeação na linha verde e descer na avenida mais paulista de Sampa.
Michele acordou cedo e tomou o café enquanto assistia ao noticiário matinal. A manifestação que estava programada na Avenida Paulista teria que ser ofuscada por movimentos de esquerda. Ficou na dúvida sobre o que vestir e preferiu uma camiseta baby look preta em sinal de protesto. A polarização havia chegado num nível tão alto de rivalidade que era muito perigoso sair com alguma camiseta de apoio a este, ou aquele partido político. A violência gratuita de Sampa não pede motivos nem licença para te dar um soco no estômago, ou um tiro na cara. A lei do poder paralelo da selva de pedra e concreto é idêntica à savana africana, ou à floresta amazônica, sobrevive quem é mais forte, ou quem sabe ler os sinais de perigo. Os paulistanos parecem estar vivendo em constante conflito entre si, disputando centímetro a centímetro, cada metro quadrado no trânsito caótico das ruas. Apesar de toda a efervescência característica da cidade, a ordem era permanecer em casa. “Stay home” diziam as capas personalizadas de Facebook. Os ônibus e Metrôs lotados não permitiam que se praticasse o distanciamento social. Havia um vírus se propagando entre as pessoas, mas fora aquilo, nada havia mudado. O mesmo empurra-empurra de todos os dias, o mesmo ar sufocante no interior dos trens, pervertidos esfregando-se em passageiras incautas causando constrangimento e nojo. Michele, além de toda a selvageria que enfrentava em cada capítulo de sua agenda diária, ainda achava tempo para ensaiar seus argumentos para desarmar extremistas de direita. Mentalmente simulava discussões e gerava respostas contundentes para quebrar qualquer bolsominion. A mídia falava a todo o tempo sobre lavar as mãos, sobre o distanciamento social, sobre o uso das máscaras e sobre ficar em casa, mas para Michele, aquela era uma luta que não poderia ser ignorada. Era uma luta contra o fascismo que começava a criar uma horrenda forma com carranca e garras afiadas e ela, como patriota e brasileira acima de tudo, tinha o dever moral de se engajar naquele movimento. Naquela altura, não interessava se o grupo que ela apoiava tinha supostamente saqueado os cofres públicos, ou que tivessem feito esquemas despudoradamente promíscuos com construtoras, ou que tivessem enviado recursos preciosos para governos ideologicamente alinhados no exterior. Para ela, a luta contra o fascismo era a causa de maior urgência e colocaria-se na linha de frente se preciso fosse.
Ela partiu da Estação Vila Madalena e seguiu até seu destino. Havia uma grande movimentação na Estação Trianon-Masp, mas Michele não queria chegar sob clima de tumulto e resolveu descer uma estação adiante. Desceu na Estação Brigadeiro onde o movimento de manifestantes era um pouco menos intenso. Alguém tocou uma vuvuzela e ela olhou para trás num misto de susto e indignação. Trombou com um rapaz de certa altura com braços vigorosos. Desculpe, ela disse desconsertada procurando o rosto dele. Tudo bem, ele disse educadamente. No exato momento em que ela percebeu aquela voz familiar, seus olhos se cruzaram e o tempo pareceu ter parado por um instante. Agnaldo? Perplexa, ela olhou naqueles familiares olhos de ébano, como se estivesse tentando achar alguma coisa nas profundezas da alma dele. Agnaldo, até ali carrancudo, sorriu um sorriso que iluminou seu rosto instantaneamente. Nossa, quanto tempo! É mesmo, disse ela. Aquele era um encontro inusitado e, desde que romperam uma década atrás, nunca mais haviam se visto. Começaram a namorar no colegial, depois foram para a faculdade e de repente, o destino os levou para caminhos diferentes. Romper foi o caminho que acharam de comum acordo para seguirem suas carreiras. Era um grande amor e a separação foi dura para ambos. Michele se casou, mas o casamento não durou muito tempo. Agnaldo também havia falhado em sua missão de encontrar sua alma gêmea, mas o destino acabara de pregar uma peça em ambos. Ele estava com a camisa da seleção brasileira e ela bem sabia o que ele estava fazendo por ali. Michele estava com uma camiseta preta e ele suspeitava que ela estava pronta para sair gritando “fora Bolsonaro”. Ele disse que estava indo na Livraria Cultura para namorar as novidades. Quer ir comigo? Podemos parar numa cafeteria e colocar o papo em dia, ele convidou-a com o coração trêmulo e ansioso por uma resposta positiva. Sua paixão por futebol era um álibi para não falar sobre política e aquela situação toda era muito delicada. Qualquer passo em falso e o amor de sua vida o chamaria de “Bozo” e sumiria de sua frente para nunca mais aparecer. Michele sentiu um calor forte no peito e na boca do estômago. Uma sensação deliciosa de estar reacendendo uma paixão que estava há muitos anos adormecida em seu coração. Ela não falaria de política, pois ele poderia chamá-la de “petralha” e sumir de sua vida novamente. Ela vivia na academia e seguindo dietas para manter as curvas, mas a camiseta preta servia para diminuir um pouco mais a sua silhueta. Agnaldo era o amor de sua vida e ela não poderia arriscar deixá-lo escapar por causa de posições políticas. Em seu íntimo, Agnaldo não concordava com alguns posicionamentos do governo. Haviam algumas coisas que ele achava que estavam certas, mas pela primeira vez, admitiu para si que o presidente talvez estivesse errando em outras. Lembrou-se dos méritos dos governos anteriores e pôs-se a refletir se havia a possibilidade de desenvolver uma linha de pensamento onde houvesse um consenso sobre quais os melhores rumos que a Nação deveria tomar. Michele sabia que Bolsonaro representava o conservadorismo, a inflexibilidade de opiniões e a dureza em suas próprias declarações, mas lá no fundo de seu senso crítico, começou a aceitar secretamente a ideia de que ele talvez fosse o início de uma grande mudança após anos de tentativas de reerguer o país. Ambos, por amor, tiveram que rever suas opiniões, mas não mais falaram de política. Cada qual guardava sua opinião para si e perceberam que o que realmente importa não é a direita, ou a esquerda, mas as pessoas, independentemente dos seus rótulos.
Agnaldo e Michele se casaram e vivem relativamente felizes, com os percalços de percurso comuns a todos os casais. Depois que foram morar no interior, sumiram do mapa, ou melhor, vivem em Ilha comprida. Não se sabe o que fazem para sobreviver, mas acredita-se que devem estar na beira da praia, sentindo a brisa fresca do mar, tomando cerveja gelada, água-de-coco e comendo coxinha de mortadela, porque para eles o amor é a coisa mais importante. Convivem bem um com o outro, respeitando-se mutuamente sem abrir mão de seus próprios valores.

sábado, 25 de março de 2017

Elis

Foto: Banco de imagens do Google

Morando no Japão, já temos muitos canais para receber as notícias de um Brasil tão distante para nós. Podcasts, rádios online e o Facebook, que não é uma fonte tão confiável, mas nos traz as notícias, muitas vezes mais rápido do que a própria mídia. Ainda não aderi ao NETFLIX, mas acho que se o Youtube não melhorar tão cedo, vou acabar assinando. Morando aqui, recebo as notícias das estreias no cinema e me bate uma certa saudade de poder ir ao cinema no Brasil. Não, hoje não quero falar do escândalo da Operação Carne Fraca, do caos que ficaram as exportações, da Lava-jato, ou de qualquer outra desgraça que tenha bombardeado nossas cabeças nesses tempos tão turbulentos. Hoje quero falar do prazer da apreciação da sétima arte e dividir as minhas impressões. Como todos sabem, a proposta desse blog é mostrar a visão de alguém que vive nesse eixo Brasil-Japão, e falar das nossas angústias, alegrias, dificuldades e do nosso cotidiano. 
Já fazia muito tempo que eu queria ver "ELIS, o filme" e esperei com muita ansiedade até que alguma alma caridosa postou ele no Youtube. Imagem e áudio com qualidade é tudo para quem quer assistir a um bom filme, mesmo que pelo Youtube. Bem, o Chromecast instalado, comandos pelo telefone funcionando direitinho e pá... Joguei a imagem da internet diretamente para a televisão. 
Vivendo nessa época em que pouca coisa boa é produzida, não é à toa que as pessoas sintam uma nostalgia imensa. Elis foi daquelas artistas marcantes e talentosas que se tornaram ícones da história da nossa música. Para as novas gerações que não a conhecem, vale à pena conferir seus trabalhos e assistir ao filme. Meu Deus! Que prazer imenso de ouvir aquela voz durante todo o filme. Não vou ficar aqui largando spoilers, mas tenho que dizer que a cada fase da vida da cantora, as músicas foram se encaixando como uma luva durante o filme. "ELIS" retrata o Brasil na época da Ditadura Militar, mostra as roupas usadas na época, os carros e o palavreado que as pessoas usavam. Revela o outro lado da artista, a pessoa por trás da cantora. O ser humano, com todas suas alegrias, paixões e frustrações. Uma mulher guerreira, talentosa e fascinante. A atriz Andreia Horta dá um show de interpretação. Além da semelhança física e da caracterização, Andreia Horta ainda faz todos os trejeitos e sorri escancaradamente como Elis fazia em suas aparições. O filme talvez peque por falta de mais detalhes sobre a vida da cantora, mas isso não tira os seus méritos e nem a beleza da história. Acho que devo estar mais sensível do que antes, pois me peguei emocionado por resgatar essa artista tão fantástica. Nessas horas sinto vontade de dizer para as novas gerações "prestem atenção nessa artista", mas sei que gosto é gosto e que as diferenças devem ser respeitadas. Elis, inegavelmente nos deixará saudade e um belo legado artístico. Quando ela morreu, me lembro que muitas pessoas teceram críticas quanto ao abuso de drogas, mas a maioria das pessoas não sabia de seus problemas emocionais e de seu processo depressivo. 
O filme é um grande presente para os fãs, uma aula para os mais jovens e uma belo tributo à sua memória. Assisti, AMEI e recomendo!!!     

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Feliz Ano Novo (com velhas e dolorosas lembranças)


Sai ano, entra ano e muitas coisas ainda continuam mal resolvidas na minha cabeça e no meu coração. Final de ano é sempre uma época nostálgica para mim, e acredito que também para a maioria dos brasileiros que vivem no Japão e que deixaram metade dos seus laços no Brasil. Amigos, filhos, tias, tios, primos, pai, mãe... De todos, um, em especial, me toca ainda com sua presença vívida, mesmo após pouco mais de dois anos de sua partida. Até hoje, ele é uma figura controversa e, atualmente, eu, mais do que ninguém posso falar que o conheci de perto. Dedicou sua vida à pratica da caridade e isso é um dos fatos notáveis de sua história, visto que era pobre e dispunha de poucos recursos. Era alegre, brincalhão e me lembro que várias pessoas que moravam longe se dispunham a viajar algumas horas para passar uma tarde alegre com ele. Ele sempre tinha um conselho, uma palavra amiga e um riso contagiante. Confesso que o amei e o odiei muitas vezes e que tenho consciência de que, de dentro de sua ignorância e singeleza ele fez o melhor que pôde. Mas não é só porque ele morreu que vou colocá-lo num pedestal e transformá-lo em santo. Talvez um dia, eu possa escrever um livro com toda a verdade sobre a sua vida. 

No começo da década de 1970 meu padrasto fugiu com minha mãe e isso acabou por fragmentar duas famílias. Não posso julgá-los se estavam certos, ou não. Talvez fossem apenas duas pessoas fugindo em busca da felicidade. Talvez fossem duas pessoas que tiveram a coragem de assumir que se amavam e assim, se predispuseram a aceitar a chuva de pedras que a sociedade lhes infringiria. De qualquer forma, eles formaram uma nova família. Minha mãe me levou para ser parte dela. Meu padrasto levou o Fabinho e a Solange. Mais tarde nasceu o Toninho, o caçula. Nossa história daria uma novela. Talvez eu pudesse dar o título de Éramos Seis. No final das contas, todos pagaram um preço muito alto por uma felicidade que não existiu. A ex-esposa do meu padrasto ficou na rua com três crianças para cuidar, meu pai entrou em depressão, teve um derrame e morreu anos após a separação, minha mãe e meu padrasto tiveram poucos momentos de paz e tranquilidade. Quanto a nós, os filhos da nova pseudo-família, vivemos num ambiente baseado no puxa-tapetes, onde a concorrência, a mentira, a deslealdade e a pirraça eram elementos que usávamos uns contra os outros. Não bastasse viver nesse inferno, eu, o Fabinho e a Solange trabalhamos duramente, assumindo responsabilidades que hoje me assustam e que eu nunca cogitaria submeter meus filhos. A Solange já em tenra idade, uma criança que trabalhou desde os seis anos lavando, cozinhando e passando sofreu tantas imposições em sua vida, tantas limitações de liberdade que não suportou tanta humilhação dentro de casa, cometidas pela minha mãe e pelo pai dela, que acabou saindo de casa. Eu, muitas vezes, tive vontade de cometer suicídio, pois qualquer coisa era melhor do que viver naquela família opressora e protecionista. Meu padrasto mantinha um discurso de trabalho, cooperação e igualdade entre os "irmãos", mas eu, como o único que não era seu filho senti na pele o gosto amargo da discriminação e da tortura psicológica. 

O tempo passou e nós crescemos. Mentalmente, espiritualmente e psicologicamente. Quanto aos meus irmãos eu não posso falar, mas eu ainda carrego sequelas psicológicas de uma época de dureza, maus tratos e críticas ácidas de um homem que não tinha base intelectual para liderar uma família tão heterogênea. Às vezes, deito a minha cabeça no travesseiro e durmo. Minha mente me transporta para o passado e eu me vejo novamente sob o julgo dele. Já acordei várias vezes chorando e percebo então que a mágoa ainda não passou. Só adormeceu lá no fundo do meu subconsciente. Ele era um homem mau? É claro que não! Como um homem pode dedicar a vida a fazer o bem e ser mau? Prefiro acreditar que ele era apenas um homem mal esclarecido, preconceituoso, rústico e ignorante com a dura missão de sustentar uma família com quatro filhos onde eu não pertencia à sua prole. Prefiro pensar que ele me discriminou pois, de maneira involuntária não soube disfarçar o seu protecionismo para com seus filhos legítimos. 

Hoje, muitos anos depois de tudo, o Natal e o Ano Novo ainda me fazem lembrar deles. Se eu amava meus pais? A resposta é sim! Apesar de toda omissão por parte da minha mãe e apesar de toda maldade por parte do meu padrasto, eu os amava e os respeitava. Meus irmãos de criação também sofreram, de forma invertida, tudo que eu passei. Quando meu padrasto faleceu em Agosto de 2014, uma enxurrada de lembranças escapou do meu subconsciente. Entrei em depressão e tive diversos problemas na minha vida pessoal, além dos que eu já enfrentava naquela época. Perdi muitas coisas importantes (não estou falando de coisas materiais) e foram perdas irreparáveis. 

Bem, ou mal, eles foram os pais que eu tive e seguindo um preceito bíblico, sempre os honrei e os respeitei apesar de tudo. Talvez, algumas pessoas dirão que sou ingrato por revelar esse triste lado da história da minha família, mas tenho convicção de que meu padrasto não fez favor algum em ter me criado, pois como dizia um primo dele "quem quer a choca tem que cuidar dos pintinhos também" e acho que se ele queria ter a minha mãe ao lado dele, nada mais honroso do que criar o filho que ela já tinha. De certa forma, fomos uma família e, aos olhos das pessoas, parecíamos felizes, mas somente quem sobreviveu a tudo aquilo pode dizer se éramos felizes, ou não. 
Sinto a falta deles e espero em breve reencontrá-los para dar-lhes um abraço fraternal e lhes perguntar os porquês de tudo aquilo que passamos.
O que me resta agora? Socar essas lembranças nos porões do meu subconsciente, trancá-las, ser forte e seguir adiante.
   

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Inferno


Depois que comecei a trabalhar com caminhão, um dos prazeres dos quais me dou o direito de desfrutar é a leitura de algum livro uns poucos minutos por dia. Nessa vida agitada que levamos aqui no Japão, o cérebro vai se desacostumando com as atividades intelectuais e acaba ficando "preguiçoso". Para que isso não aconteça, nada melhor do que aprender coisas novas, ou simplesmente ler um bom livro. O livro que acabei de ler essa semana é Inferno, de Dan Brown. O título, muito longe do que se possa pensar, não se trata de alguma citação bíblica, mas sim de um suspense policial da melhor qualidade, onde Robert Langdon, o protagonista tem que desvendar uma trama onde as chaves de seus mistérios estão escondidas em citações contidas na obra de Dante Alighieri, A divina comédia. Evidentemente, não vou contar tudo aqui, mesmo porque, não sou nenhum estraga-prazeres, mas posso adiantar que Inferno é um prato cheio para amantes da arte, da história e da literatura. Dan Brown nos joga no meio de uma trama densa e eletrizante e se você aceitar a proposta do enredo, conseguirá viajar nesse emaranhado de conspirações e, entre perseguições e fugas o decifrar de cada enigma vem sucedido de muita ação e suspense. A riqueza impressionante de detalhes tanto da parte arquitetônica, quanto da parte artística e literária fazem o leitor mergulhar numa obra que, acredito sem sombra de dúvidas ser muitas vezes superior ao aclamado O código da Vinci.
A obra me deixa tentado a incluir a Itália e evidentemente, Florença como mais um dos lugares que gostaria de visitar antes de morrer. Na minha modesta opinião, o livro é simplesmente sensacional e, como sempre digo, li, gostei e super recomendo! 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O pior tipo de analfabetismo

Foto: arquivo pessoal

A solidão do meu trabalho me permite fazer muitas reflexões a respeito da vida, do mundo e das pessoas. Hoje, gostaria de tecer alguns comentários a respeito do tema analfabetismo, mas não vou falar a respeito daqueles que não sabem decodificar as letras... Alguém dirá "como assim?" e eu já vou explicar. Existem dois (principais) tipos de analfabetos:

      1) aquele que não sabe ler e nem escrever, o tipo mais comum;
      2) aquele que não sabe ler os códigos do cotidiano, os sinais da vida;

É justamente a respeito desse segundo tipo que eu gostaria de convidar você, leitor a fazer uma análise comigo e você tem total liberdade de discordar de mim, se o que vou escrever nas próximas linhas fugir ao lógico.
Costumo dizer que "se o seu defeito não me prejudica, então, para mim você não tem defeito", assim como se, o que você é e faz, de algum modo prejudica a sociedade, então, para mim, você tem um defeito e caberá analisar se devo, ou não manter a minha amizade contigo.
Não quero aqui levantar uma bandeira contra quem não teve oportunidade de aprender a ler e escrever, mas fazer uma crítica aos que são os analfabetos das coisas relacionadas à vida.
Qual a diferença? O analfabeto das letras simplesmente não sabe ler e escrever, ou o faz de maneira precária. Já o analfabeto da vida, esse é um peso para a sociedade, visto que vive de maneira egoísta, desregrada e nociva dentro da sociedade. É aquele sujeito que, por pura ignorância não respeita as regras, não cumpre horários, não honra compromissos, não participa ativamente de atividades que melhoram a vida de todos. Quando falo de atividades que melhoram a vida de todos, me refiro às coisas básicas como não jogar lixo na rua, não vender o voto, não cortar fila, não corromper e não ser corrompido... O analfabeto da vida não sabe ler e entender os sinais da moral e da ética, assim como não os aprende e não se esforça para aprendê-los.
"Política não se discute" é o que os analfabetos políticos, uma derivação dos analfabetos da vida dizem e é por isso que o país está na situação que vemos hoje. Infelizmente podemos notar que ao nosso redor há uma horda de pessoas letradas que são analfabetos da vida. Muitos dos analfabetos das letras são doutores em questões pertinentes à vida e nisso, eles dão um verdadeiro show de conhecimento. No meu círculo de relacionamentos conheço uma pessoa incrível (essa senhora da foto) que é analfabeta das letras, mas é PhD em assuntos relacionados à vida e às pessoas. São raras as pessoas com tanto conhecimento, tanta sensibilidade e tanto amor. Um coração de uma bondade que transborda e uma experiência de vida que nos traz muitas lições. Nesta minha vida, passei muito tempo adquirindo conhecimento, mas se eu chegar ao menos a um terço do que essa senhora é, eu já me sentiria um privilegiado, pois a sua cultura, o seu conhecimento, o seu discernimento e a sua coragem são fortes indícios de que ela é letrada (e muito) na escola da vida. Muito melhor do que quem sabe "simplesmente" ler e escrever, pois saber ler os sinais da vida é um conhecimento, um dom especial que somente pessoas especiais podem ter. Ficamos imaginando quão fantástico seria se essa mulher maravilhosa soubesse ler e escrever!!! 

domingo, 14 de agosto de 2016

O Diário de Anne Frank

O Diário de Anne Frank

     Olá meus poucos e fiéis amigos. Mês passado a minha filha esteve no Japão para fazer um pouco de turismo e me visitar. Trouxe consigo um exemplar de O Diário de Anne Frank. Já fazia algum tempo que eu queria adquirir esse livro, mas a correria do dia-a-dia acabou por fazer com que eu fosse adiando a compra. Gosto muito de ler, mas o estilo de vida que levo aqui, por vezes, me priva desse prazer. Quero agradecer muitíssimo à minha amiga Maura Sposito Esteban pelo presente. Aliás, se for pensar em presente para mim, dependendo do título, o acerto é quase certo!!! 
   Mas bem, vamos ao livro. Como disse, devido ao meu estilo de vida, li ele aos poucos. Gosto de saborear cada página sem pressa e absorver as impressões ali contidas. Conheço muita gente que lê numa velocidade vertiginosa, mas eu prefiro manter um certo ritmo, mesmo que demande mais tempo. Prefiro não comprometer todo o encantamento do conteúdo. O Diário de Anne Frank foi escrito por uma menina entre seus 14 e 15 anos e retrata o dia-a-dia de oito pessoas que se esconderam em cômodos secretos numa fábrica de temperos durante a Segunda Guerra Mundial. A entrada era camuflada por uma estante e eles viveram ali por cerca de dois anos. Dividiam o espaço, organizaram horários e racionaram comida. O que se percebe numa situação dessas é o que se via nos Big Brothers da vida (guardadas as diferenças de contexto), muitos conflitos, muito estresse e muitos problemas gerados por mal interpretação das intenções do outro. Percebe-se também que a família Frank era um grupo de pessoas cultas e de certo nível social. Tinham uma grande preocupação com a cultura e a aquisição de conhecimento. Anne, por exemplo, tinha conhecimento vasto sobre muitos autores, sobre filosofia, mitologia e escrevia com maestria sobre diversos assuntos como a guerra, política, convivência social e o cotidiano do esconderijo que ela chamava de o anexo. A quantidade de conhecimento adquirida por Anne explica sua destreza para produzir textos tão perturbadoramente perfeitos. Em seu diário, ela desabafa com sinceridade sobre suas ansiedades e sobre todas as coisas que a desagradam no convívio com outras pessoas no anexo, principalmente com relação à sua mãe e Dussel. Difícil imaginar nos dias de hoje, uma menina de 14 anos tecendo críticas aos adultos com tamanha clareza e equilíbrio. O texto se resume em várias cartas escritas para Kitty, sua amiga imaginária, ou poderemos até mesmo dizer que Kitty era o nome que ela teria dado ao diário. Diferente do que possamos pensar sobre o livro, ele não fala propriamente sobre o holocausto, mas faz muitas referências quando Anne cita as notícias que alguém trouxe de fora. 
     A impressão que tenho é que os dois, ou três últimos capítulos foram manipulados. Os textos são mais longos e densos, mas isso não chega a tirar o mérito da obra. O desconforto, a vida clandestina, o medo e a esperança são descritos na obra com riqueza de vocabulário e nos induz a uma forte reflexão sobre a brutalidade humana. O livro é muito bom, emotivo e realístico, mas não é propriamente um bom passa-tempo. Tem inegavelmente um grande valor histórico. Como digo sempre, li, gostei e recomendo!