sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O pior tipo de analfabetismo

Foto: arquivo pessoal

A solidão do meu trabalho me permite fazer muitas reflexões a respeito da vida, do mundo e das pessoas. Hoje, gostaria de tecer alguns comentários a respeito do tema analfabetismo, mas não vou falar a respeito daqueles que não sabem decodificar as letras... Alguém dirá "como assim?" e eu já vou explicar. Existem dois (principais) tipos de analfabetos:

      1) aquele que não sabe ler e nem escrever, o tipo mais comum;
      2) aquele que não sabe ler os códigos do cotidiano, os sinais da vida;

É justamente a respeito desse segundo tipo que eu gostaria de convidar você, leitor a fazer uma análise comigo e você tem total liberdade de discordar de mim, se o que vou escrever nas próximas linhas fugir ao lógico.
Costumo dizer que "se o seu defeito não me prejudica, então, para mim você não tem defeito", assim como se, o que você é e faz, de algum modo prejudica a sociedade, então, para mim, você tem um defeito e caberá analisar se devo, ou não manter a minha amizade contigo.
Não quero aqui levantar uma bandeira contra quem não teve oportunidade de aprender a ler e escrever, mas fazer uma crítica aos que são os analfabetos das coisas relacionadas à vida.
Qual a diferença? O analfabeto das letras simplesmente não sabe ler e escrever, ou o faz de maneira precária. Já o analfabeto da vida, esse é um peso para a sociedade, visto que vive de maneira egoísta, desregrada e nociva dentro da sociedade. É aquele sujeito que, por pura ignorância não respeita as regras, não cumpre horários, não honra compromissos, não participa ativamente de atividades que melhoram a vida de todos. Quando falo de atividades que melhoram a vida de todos, me refiro às coisas básicas como não jogar lixo na rua, não vender o voto, não cortar fila, não corromper e não ser corrompido... O analfabeto da vida não sabe ler e entender os sinais da moral e da ética, assim como não os aprende e não se esforça para aprendê-los.
"Política não se discute" é o que os analfabetos políticos, uma derivação dos analfabetos da vida dizem e é por isso que o país está na situação que vemos hoje. Infelizmente podemos notar que ao nosso redor há uma horda de pessoas letradas que são analfabetos da vida. Muitos dos analfabetos das letras são doutores em questões pertinentes à vida e nisso, eles dão um verdadeiro show de conhecimento. No meu círculo de relacionamentos conheço uma pessoa incrível (essa senhora da foto) que é analfabeta das letras, mas é PhD em assuntos relacionados à vida e às pessoas. São raras as pessoas com tanto conhecimento, tanta sensibilidade e tanto amor. Um coração de uma bondade que transborda e uma experiência de vida que nos traz muitas lições. Nesta minha vida, passei muito tempo adquirindo conhecimento, mas se eu chegar ao menos a um terço do que essa senhora é, eu já me sentiria um privilegiado, pois a sua cultura, o seu conhecimento, o seu discernimento e a sua coragem são fortes indícios de que ela é letrada (e muito) na escola da vida. Muito melhor do que quem sabe "simplesmente" ler e escrever, pois saber ler os sinais da vida é um conhecimento, um dom especial que somente pessoas especiais podem ter. Ficamos imaginando quão fantástico seria se essa mulher maravilhosa soubesse ler e escrever!!! 

domingo, 14 de agosto de 2016

O Diário de Anne Frank

O Diário de Anne Frank

     Olá meus poucos e fiéis amigos. Mês passado a minha filha esteve no Japão para fazer um pouco de turismo e me visitar. Trouxe consigo um exemplar de O Diário de Anne Frank. Já fazia algum tempo que eu queria adquirir esse livro, mas a correria do dia-a-dia acabou por fazer com que eu fosse adiando a compra. Gosto muito de ler, mas o estilo de vida que levo aqui, por vezes, me priva desse prazer. Quero agradecer muitíssimo à minha amiga Maura Sposito Esteban pelo presente. Aliás, se for pensar em presente para mim, dependendo do título, o acerto é quase certo!!! 
   Mas bem, vamos ao livro. Como disse, devido ao meu estilo de vida, li ele aos poucos. Gosto de saborear cada página sem pressa e absorver as impressões ali contidas. Conheço muita gente que lê numa velocidade vertiginosa, mas eu prefiro manter um certo ritmo, mesmo que demande mais tempo. Prefiro não comprometer todo o encantamento do conteúdo. O Diário de Anne Frank foi escrito por uma menina entre seus 14 e 15 anos e retrata o dia-a-dia de oito pessoas que se esconderam em cômodos secretos numa fábrica de temperos durante a Segunda Guerra Mundial. A entrada era camuflada por uma estante e eles viveram ali por cerca de dois anos. Dividiam o espaço, organizaram horários e racionaram comida. O que se percebe numa situação dessas é o que se via nos Big Brothers da vida (guardadas as diferenças de contexto), muitos conflitos, muito estresse e muitos problemas gerados por mal interpretação das intenções do outro. Percebe-se também que a família Frank era um grupo de pessoas cultas e de certo nível social. Tinham uma grande preocupação com a cultura e a aquisição de conhecimento. Anne, por exemplo, tinha conhecimento vasto sobre muitos autores, sobre filosofia, mitologia e escrevia com maestria sobre diversos assuntos como a guerra, política, convivência social e o cotidiano do esconderijo que ela chamava de o anexo. A quantidade de conhecimento adquirida por Anne explica sua destreza para produzir textos tão perturbadoramente perfeitos. Em seu diário, ela desabafa com sinceridade sobre suas ansiedades e sobre todas as coisas que a desagradam no convívio com outras pessoas no anexo, principalmente com relação à sua mãe e Dussel. Difícil imaginar nos dias de hoje, uma menina de 14 anos tecendo críticas aos adultos com tamanha clareza e equilíbrio. O texto se resume em várias cartas escritas para Kitty, sua amiga imaginária, ou poderemos até mesmo dizer que Kitty era o nome que ela teria dado ao diário. Diferente do que possamos pensar sobre o livro, ele não fala propriamente sobre o holocausto, mas faz muitas referências quando Anne cita as notícias que alguém trouxe de fora. 
     A impressão que tenho é que os dois, ou três últimos capítulos foram manipulados. Os textos são mais longos e densos, mas isso não chega a tirar o mérito da obra. O desconforto, a vida clandestina, o medo e a esperança são descritos na obra com riqueza de vocabulário e nos induz a uma forte reflexão sobre a brutalidade humana. O livro é muito bom, emotivo e realístico, mas não é propriamente um bom passa-tempo. Tem inegavelmente um grande valor histórico. Como digo sempre, li, gostei e recomendo! 

sábado, 16 de julho de 2016

Um novo olhar sobre velhas coisas

Foto by Wiliam Matsubara

     A vida deu muitas voltas e eu estou aqui novamente depois de tantos meses sem postar nada. Pensaram que eu havia desistido? Não... Só estava dando um tempo e reciclando as ideias. Foi em Agosto do ano passado que fiz a postagem anterior, ou seja quase um ano!!! O que fiz nesse tempo? Fui para o Brasil duas vezes, fiz tratamento por algum tempo com a Dra. Gisele, pessoa fantástica, diga-se de passagem. A depressão ainda é uma sombra negra que ronda, mas tenho me refugiado primeiramente em Deus, depois no trabalho e no amor que tenho pelos meus filhos. Minha mente continua, como sempre, inquieta e eu preciso estudar, escrever, ou falar tudo que sinto. Estou escrevendo um livro nas horas vagas e isso tem me ajudado a desviar o foco de alguns problemas emocionais que me perseguem a alguns anos. Estou me programando para voltar para o inglês, mas primeiro tinha que cumprir uma promessa que havia feito para minha filha: uma viajem para o Japão. Ela veio com o namorado e ficaram por aqui umas duas semanas. Viajaram para diversos lugares interessantes e acho que se divertiram bastante. Para mim, essa viagem foi muito importante já que pude vê-la mais uma vez, por pouco que fosse. Ela curtiu momentos comigo e com o irmãozinho, experimentou a culinária local e conheceu um pouco mais da cultura desse país fantástico. Da vida, realmente não levamos nada além desses momentos de cultura, aprendizado e alegria. A visão para minha filha enquanto turista é encantadora e o Japão vai deixar nela boas lembranças. A minha visão enquanto residente deste país é bem diferente e sei que apesar de amar muito este país, vou levar sequelas, traumas e muitas lembranças nem tão doces assim. Para mim, o Japão é sinônimo de segurança, de limpeza, de organização, mas também é sinônimo de muito trabalho, saudades e luta. Quando estive no Brasil, me inscrevi em dois concursos públicos... Só gastei dinheiro, pois não fui prestá-los. Daqui, hoje, vejo a nação entrando num grande retrocesso, a corrupção em níveis alarmantes, a violência generalizada e o Estado, que deveria organizar a máquina administrativa, acaba por tomar medidas cada vez mais infames para arrecadar mais e mais dinheiro. A indústria da multa é a forma mais imoral e descarada de extorsão que já foi usada contra um povo mal-educado, mal-informado e mal-formado. O Brasil precisa precisa de uma reforma urgente, mas uma reforma moralizadora que atinja desde o alto escalão do governo até a população. O Brasil precisa de uma reforma principalmente na mentalidade das pessoas, pois de nada adianta querer construir um país de primeiro mundo habitado por trogloditas!!! 
Quanto ao Japão, Bem, como disse a Dra. Gisele certa vez, "você deve lançar um novo olhar em coisas velhas..." Assim, vou procurar mudar a minha forma de viver, de encarar e de incorporar o meu modo de vida neste país que se tornou a minha segunda Pátria. O sonho de voltar ao meu país ainda acalento no meu coração, mas enquanto esse dia não vem, vou lutando por aqui até que o mundo dê as suas voltas e eu me reencontre comigo mesmo.   

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Progresso, ou retrocesso?

Foto: Ponte na divisa entre os Estados de Minas Gerais (Montalvânia) e Bahia (Cocos)
Arquivo pessoal.

Desde que desembarquei no Japão pela primeira vez em Março de 1991, já fiz muitas vezes o caminho de ida e volta ao Brasil. De lá para cá, muita coisa mudou. A tecnologia foi chegando cada vez mais rápido e o Brasil começou a acompanhar com menos atraso as inovações que surgiam no mundo. Hoje, a comunicação entre as pessoas que moram no Japão com as pessoas que moram no Brasil está mais intensa e os laços se estreitaram a ponto de sabermos da vida de todo mundo quase que em tempo real. Programas de computador cada vez mais modernos facilitam a vida entre as pessoas e já é possível telefonar via internet com programas como o Whatsapp e o Messenger, que é um aplicativo anexo do Facebook. Tudo isso com qualidade e com custo praticamente zero.
Eu me lembro que no início da década de 90, para ligar para o Brasil, a gente tinha que procurar um telefone público com uma placa marrom, que era o tipo de aparelho que permitia as ligações internacionais. Perdi as contas de quantas vezes fui ao correio para comprar selos para enviar cartas para a minha mãe, assim como revelar fotos e pagar uma fortuna para enviá-las para o Brasil. Hoje tudo isso se faz via internet na comodidade de casa e sem gastar muito. A tecnologia chegou ao Brasil com força e proporciona conforto e prazer aos brasileiros. Hoje temos celulares de última geração que vieram para substituir fax, calculadora, agenda eletrônica, câmera fotográfica, filmadora, calendário e uma infinidade de outros aparelhos, facilitando o nosso trabalho e proporcionando lazer. É... Os tempos mudaram, mas a doença crônica do Brasil não sara: a corrupção. Eu sempre insisto na ideia de que a corrupção é a mãe de todas as outras mazelas do país e, na contramão do progresso tecnológico, o Brasil vive um retrocesso no seu desenvolvimento enquanto nação como um todo. Nunca antes neste país se viu tanto escândalo de corrupção, de roubo descarado e de demagogia. Discursos inconsistentes e falatórios sem nexo na intenção de ludibriar o povo.

 “Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta” 

A pérola acima foi proferida pela mulher que dirige a nossa nação. Pela mulher que deveria dar o exemplo de austeridade e que deveria moralizar a política e viabilizar o crescimento deste país. A impressão que se tem é de que ela está nos enrolando, para ganhar tempo até que o mandato se acabe. Enquanto isso a roubalheira e a farra com o dinheiro público continua sem que ninguém faça nada, pois as pessoas que deveriam fazer alguma coisa parecem acuadas por quem está no poder.
Hoje no Japão, que já foi considerado um país extremamente caro, muitas coisas estão custando menos do que no Brasil. Uma ida ao restaurante no Japão não sai tão caro quanto comer fora no Brasil. O custo de vida está muito caro, energia elétrica chegou a patamares absurdos e a gasolina não para de aumentar. Enquanto isso, obras superfaturadas são erguidas debaixo dos nossos narizes, radares ajudam a engordar os cofres públicos na desculpa de tornar o trânsito mais seguro e a impressão que se tem é de que eles querem sugar o máximo possível a máquina de ganhar dinheiro, antes que o povo acorde e não os reeleja. A saúde, a segurança a educação estão jogadas às traças enquanto enormes painéis publicitários encomendados pelo próprio governo mostram demagogicamente os progressos inexistentes promovidos pelo governo. Afinal, houve um progresso, ou um retrocesso nas questões políticas do Brasil?    

sábado, 4 de julho de 2015

Desmistificando algumas ideias

Foto: Arquivo pessoal

Sinto-me privilegiado de ter nascido em São Paulo, pois aqui, desde pequeno, tive a oportunidade de conviver com pessoas das mais diversas partes do Brasil e até do mundo. Tenho que admitir que grande parte dos paulistas tem a mania de colocar rótulos nas pessoas de outros lugares, generalizando os indivíduos e criando imagens de forma pejorativa. Quem em São paulo nunca ouviu frases como essas que seguem abaixo:

-Baiano é preguiçoso;
-Gaúcho é metido;
-Carioca é malandro;
-"Preto" quando não pisa na bola na entrada, pisa na saída;
-Português é burro;
-Judeu é enrolão;
-Mineiro é falso.

Nesta semana tive uma prova de que ainda existe muita gente com o pensamento atrasado e a mente preconceituosa. Comentários racistas contra a moça que faz o boletim da previsão do tempo no Jornal Nacional  causaram uma grande indignação na maioria (espero) dos brasileiros. Não consigo deixar de pensar que em pleno século 21 ainda haja "gente" que não acredita que todos somos iguais diante dos homens e diante de Deus.
Estamos numa era de grandes mudanças e a vida em sociedade clama por mudanças na forma das pessoas entenderem o mundo. Já passou da hora de muita gente rever os seus conceitos e realinhar suas atitudes em conformidade com as exigências da vida em sociedade.

Eu gostaria de comentar a última frase acima "Mineiro é falso..."
Vivi metade da minha vida no Brasil e a outra metade no Japão. Nesses anos, convivi com pessoas de vários lugares: chineses, filipinos, peruanos, bolivianos... Brasileiros de vários Estados: mineiros, baianos, goianos, paranaenses, catarinenses, gaúchos, amazonenses, paraenses... O que dizer dessa gente toda? Não há de se generalizar, mas encontrei no meio de todos esses seres humanos, pessoas boas e pessoas nem tanto... A falsidade existe, mas devo confessar que encontrei mais gente sem credibilidade dentre os meus conterrâneos paulistas do que dentre os mineiros, contrariando assim a frase citada acima. 

Uma viagem para Mina Gerais é uma experiência única! A riqueza histórica, a culinária, a arquitetura, a arte e principalmente o povo hospitaleiro, simples e acolhedor.
Para mim, é sempre um prazer chegar em uma roda de amigos, sentar-me junto a eles e conversar animadamente. Dentistas, profissionais liberais, intelectuais, políticos, fazendeiros... Ninguém se auto-refere e nem entona conversas com ares de superioridade... O encanto do povo mineiro é sua simplicidade e modéstia. Ninguém se acha melhor do que ninguém e quando se tornam seus amigos, tenha certeza, serão parte dos seus melhores amigos! Mineiro é tão modesto que quando dizem "Vamos ali na roça comigo?" tenha certeza de que você vai se deparar não com uma roça, mas com terras a perder de vista. O exagero deles é um exagero bom e bem humorado. "Nóssinhora, caiu um trem nu meu oi..." O alqueire deles é de 48 mil metros, enquanto o alqueire paulista é de 24 mil. Uma "fazendinha" de 50 alqueires deles lá é terra que a minha imaginação não consegue conceber...
Mina Gerais: um lugar que aprendi a amar e onde encontrei uma grande quantidade de pessoas de sentimentos verdadeiros! Como dizia o Raul Seixas "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo..." 

Para pensar e refletir:
Antes de dizer alguma frase feita de tom preconceituoso, analise se ela tem algum fundamento. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A tempestade

Foto: Arquivo pessoal

     Certa vez, quando ainda era adolescente, um dos meus mentores me disse algo que se encaixa perfeitamente na situação pela qual passei esses tempos atrás: "Quando vier a tempestade, busque um lugar para se abrigar e não a enfrente de peito aberto tentado vencer..." É uma grande verdade e essa analogia serve para qualquer situação crítica em nossas vidas. Lá no início dos anos 1990, eu já ouvia histórias sobre nikkeis que voltaram do Japão com problemas emocionais, síndromes psicóticas e esquizofrenia, mas nunca achei que eu mesmo passaria por tantas coisas que fossem roubar o meu equilíbrio. Nos meus mais de vinte anos no eixo Brasil-Japão eu conheci pessoas que sofriam de algum tipo de desequilíbrio emocional. Em geral, eram pessoas solitárias, vivendo longe dos familiares, ou fugindo de algum problema que haviam deixado no Brasil... 
     Eu sempre soube que a maldade existia, mas achei que tentando ser uma pessoa boa e praticando o bem de maneira efetiva, eu estaria imune a toda ação mal-intencionada. Ledo engano... Acordei para uma dura realidade: Pessoas más não possuem ética, são mal agradecidas e não exitam em puxar o tapete até mesmo daqueles que lhes estenderam a mão em momentos de dificuldades. Fazer o que? O mundo e a vida são uma escola e as vezes, algumas lições saem muito caras e nos deixam com sequelas emocionais e psicológicas muito profundas.
     Eu, assim como muitas pessoas que passaram por problemas, deixei a situação chegar a um ponto tão crítico que senti que estava no meu limite. Caí em depressão e relutei em buscar ajuda. Estive à beira do suicídio algumas vezes e hoje, reconheço que eu deveria ter buscado ajuda médica, recursos e a companhia de pessoas boas. Felizes daqueles que tem o seu porto seguro na existência de uma família unida, forte e amorosa. Eu tenho muitos parentes, muitos atarefados com suas próprias vidas e cuidando de seus próprios problemas. São pessoas maravilhosas, mas nem sempre posso correr para lá para pedir um abraço e um ombro para chorar. 
     Muitas vezes, as soluções vêm de onde a gente menos espera e eu encontrei o meu abrigo para a tempestade junto à pessoas que nem possuem vínculo sanguíneo comigo. Fui até onde meu filho se encontra hoje e passei uns dias com ele. Ele precisa da minha companhia, mas na verdade, eu preciso ainda mais da companhia dele. Aliás, eu não vivo sem os meus dois filhos, que foram presentes que Deus me enviou e que a distância, às vezes, me priva da companhia deles. Enfim, fui para a distante cidade de Montalvânia, encravada ao noroeste de Minas na divisa com a Bahia. Lá, além de desfrutar da companhia do meu filho, fiz uma higiene mental, me desintoxiquei dos anos de energias negativas com as quais fui bombardeado diariamente, fiquei cercado de pessoas do Bem e de gente simples da roça que me dedicaram um dedinho de prosa prazerosa e compartilharam comigo a magia de estar vivo e respirando aquele ar puro, pisando na terra e comendo aquela comida saborosa temperada com açafrão e cominho. Eles se sentiram honrados em me receber em suas humildes casas de chão batido, mas não tinham ideia de que eu me senti mais lisonjeado de ser convidado a entrar em seus palacetes de simplicidade e me sentar à mesa para sorver uma xícara de café preparado com singeleza e carinho. Costumo dizer que Minas é um lugar cheio de encantos, mas o que há de melhor por lá é a sua gente, com o coração do tamanho de um trem!!! 
     Sinto que a tempestade passou e que enquanto eu me abrigava, encontrei amigos que me ensinaram belas lições de vida. Toda tempestade passa e deixa algum estrago, mas até eu ter condições de consertar tudo, ainda me resta apreciar a beleza do arco-íris que se formou no céu diante de mim.   

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Seguindo em frente

Foto: Arquivo pessoal

     Desde sempre tive a sensação de que eu não era dono do meu destino e dos meus caminhos. De alguma forma, sempre fui levado por caminhos que eu não esperava trilhar. Para mim, viver no Japão já não me traz muitas alegrias e estar numa situação em que não me vejo nem lá, nem cá, me trazia um grande desconforto. Não me envaidece ter uma empresa lá e muito menos pretendia viver tanto tempo longe da minha filha. Ano passado, eu voltei ao Brasil com a intenção de me fixar definitivamente por aqui. Estava tudo planejado: concluir a faculdade, arranjar um emprego, estudar para concursos públicos... Prometi algo para a minha filha que ela esperava desde que era pequena. "Desta vez, eu voltei de vez", eu disse. Na época, eu já tinha alguns trabalhos em vista e somados com um pequeno rendimento que tenho, já daria para viver de forma relativamente confortável. O destino resolveu brincar comigo e me mostrar mais uma vez que eu ainda não era dono dos meus rumos. Meu padrasto faleceu e eu percebi que gostava mais dele do que eu mesmo imaginava. Fiquei muito abalado e para ser franco, ainda não estou conformado com a partida dele. Para piorar, meu pseudo-irmão, além de querer vender o sítio que é meu, pois foi comprado com o meu dinheiro, ainda andou espalhando uma enxurrada de bobagens a meu respeito para encobrir toda a sujeirada que ele fez comigo lá no Japão. A saudade do meu filho Emanuel também me sufocava e haviam alguns problemas burocráticos que eu precisei resolver na empresa: contabilidade de final de ano, renovação da licença de importação e outras coisas... Eu estava muito fragilizado e já não conseguia raciocinar direito. Entrei em depressão e aos poucos fui sendo minado por uma série de tantos outros acontecimentos à minha volta. Sem pensar, quebrei a minha promessa e voltei ao Japão. Haviam muitas coisas a fazer... Não avisei ninguém e quando as pessoas perceberam, eu estava lá novamente. Talvez, poucas pessoas saibam o que é deixar as pessoas que você ama e partir para um lugar distante. A minha depressão se agravou e eu já não conseguia dormir e nem comer. Tentei dar fim em tudo algumas vezes... Fui definhando e me tornando um caco física e emocionalmente. Voltei ao Brasil cerca de dez quilos mais magro e com uma sequela psicológica profunda. Meus sonhos e esperanças haviam se dissipado e eu não conseguia enxergar alegria em mais nada. 
     Aos poucos, fui procurando recursos e busquei em calmantes e florais um atenuante para as minhas ansiedades. Meu sono e meu apetite ainda não voltaram ao normal, mas a companhia de minha filha, dos meus amigos verdadeiros e de alguns familiares tem me ajudado a ter ânimo. Sei que preciso buscar soluções e superar as minhas perdas e frustrações, mas tenho consciência de que não posso perder as esperanças. O sorriso dos meus filhos tem me ajudado a me erguer e a levantar a cabeça. Estou entregando os meus caminhos nas mãos de Deus e vou reconstruir a minha vida.
     Obrigado Denise e Emanuel por vocês serem os meus filhos maravilhosos. Obrigado Nágida, por ter me entendido e assim poder me apoiar nesse momento em que você precise mais de amparo do que eu. Obrigado minha prima Mônica e minhas tias Rosa e Araci, pelos bons conselhos e pelo amparo emocional. Obrigado Adão & Denise, Marquinhos & Stephanie pelo carinho e pela certeza de que vocês são meus amigos de verdade. Obrigado Nerislande e Antônio Souza pelas palavras de apoio e conforto. 
     Agora, posso ver com clareza que isso tudo é somente uma fase e que eu vou superar tudo novamente, assim como o fiz em outras vezes.