sábado, 1 de maio de 2021

A ignorância é a pior doença que existe


 

   No dia 14 de Fevereiro de 1996, minha mãe falecia aos 51 anos vítima das sequelas de um AVC. Quando retornei dos meus primeiros 3 anos trabalhados no Japão, minha mãe não parecia a mesma mulher que eu havia deixado no Brasil.

   3 anos antes, eu me despedia dela e do meu padrasto no Aeroporto Santos Dumont em Porto Alegre. Minha mãe ainda era jovem e tinha longos cabelos negros. Quando retornei ao Brasil, ela estava com os cabelos curtos e grisalhos, algumas marcas de expressão fortes e com a metade do corpo paralisada em consequência de um derrame. Estava com as mãos e os pés inchados e acredito que deveria ser algum problema de má circulação.

   Gente, eu tenho que falar... Doença é um assunto sério!!! Meu pai-drasto sempre fazia aquela lavagem cerebral na gente dizendo que remédio era coisa ruim, que dava efeito colateral e que tudo poderia ser tratado com chás. "A indústria farmacêutica inventa essas coisas para tirar o dinheiro dos trouxas".

   Pressão alta é uma doença crônica e no meu caso, hereditária. Cresci vendo minha mãe passando mal de tempos em tempos e eles tentando resolver tudo com chazinho. 

   Eu me lembro que quando morávamos na chácara, era um suplício. Se alguém ficava gripado, tinha febre, tinha tosse, passava mal, mas meus pais achavam que tudo se resolvia com chazinho... Eu me lembro das tantas vezes que passávamos semanas a fio passando mal e sem conseguir dormir com aquela tosse incessante. "Toma chá de guaco que passa!"

   Machucado, torção, queda... Levar no médico? Nem pensar... Passávamos semanas e até meses com machucados e infecções sendo tratados com fumo, emplastos e salmoura. 

   Eu fico me questionando se essa resistência a ir no médico e aos remédios era por falta de dinheiro. 

   Bem, voltando à hipertensão, em mim, ela se manifestou por volta dos vinte anos. Passava muito mal quando tinha as crises. Não podia comer nada com muito sal, não podia me estressar e eu pensei que ser atleta me deixaria imune aos efeitos desastrosos da doença. Iniciei um tratamento aos vinte e oito anos, depois de uma crise da qual pensei que não escaparia. O médico me disse que fazer esportes era super positivo para a minha saúde, mas que eu deveria rever a minha dieta e iniciar um tratamento, pois sofria de uma doença crônica. 

   Iniciei o tratamento e o tempo foi passando. Com o tempo, relaxei e deixei tudo de lado. Morando no Japão, fiquei um bom tempo trabalhando sem pagar o seguro saúde. Perdi as contas de quantas vezes passei mal e tive que faltar ao serviço. Tive consequências sérias devido ao agravamento da minha hipertensão. Já me vi à beira de um ataque cardíaco, ou coisa pior e, mesmo assim, a ignorância me cegava, pois eu tinha que trabalhar, tinha que cuidar da minha filha e tinha que economizar dinheiro. Só eu sei a luta que foi sobreviver no Japão, enfrentar a minha luta diária e aguentar a doença. Ir ao trabalho dias seguidos passando mal para não ser mandado embora do emprego. 

   Depois de certo tempo, as empresas começaram a impor o Shakai Hoken para os funcionários. Nesse sentido, fiquei muito chateado com o desconto que começou a vir no meu pagamento, mas o seguro saúde me permitiria fazer o meu tratamento novamente. Fui ao médico e levei uns bons puxões de orelha por causa do meu desleixo, mas essa reviravolta foi muito positiva para mim e para a minha família. 

   Hoje tenho consciência de que terei que tomar remédio até o final da vida, mas ainda assim, de certa maneira, estou vivendo praticamente de maneira normal. Tenho que ser cuidadoso com a quantidade de sódio que consumo, tenho que fazer atividades físicas, tenho que controlar o peso e tenho que evitar o estresse. Tudo coisa simples que eu levei tempo para entender. 

   Completei 51 anos no último dia 28 de Abril e o fato de ter alcançado a minha mãe me trouxe muitas reflexões. Hoje eu vejo que ela não era tão velha assim... Estava somente judiada pela doença e cega pela ignorância. Ignorância nociva e contagiosa que quase custou a minha vida. Hoje eu me sinto bem disposto para o trabalho, além das minhas atividades como escritor, pai e comerciante. 

   Se eu não tivesse aberto meus olhos a tempo, talvez não conseguisse nem alcançar a minha mãe. Saúde é coisa séria e não deve ser colocada fora das nossas prioridades. Amei minha mãe muito, apesar das nossas diferenças, mas ainda não quero ir de encontro à ela, pois ainda tenho um filho pequeno para cuidar e educar. Quero ver meus filhos realizados, quero escrever muito e deixar um legado antes de partir deste mundo! 

domingo, 25 de abril de 2021

Estamos todos atravessando tempos difíceis

 



Saudações queridos amigos e ilustres internautas. 

   Hoje venho falar sobre livros... Mas não são simplesmente livros, mas a expressão de experiências de vida e o sonho consumado de escrever e compartilhar ideias com o mundo. A ideia de deixar um legado para as próximas gerações. A vontade de instigar, de provocar e incitar pensamentos críticos numa geração que carece de leitura. 

   O Corona Vírus chegou trazendo doença, pestilência, sofrimento e morte, mas se não lutarmos, mesmo que tomando precauções contra o contágio e respeitando as regras básicas de sobrevivência, a morte de todos aqueles que sucumbiram terá sido em vão... São pequenas atitudes que geram grandes resultados no controle da pandemia. Vejo os dados e as estatísticas alarmantes do Brasil e fico do lado de cá com o coração apertado por aqueles familiares e amigos que estão distantes. 

   Aproveite o tempo em que você fica se torturando por não poder ir para os bares, para as baladas e para as aglomerações e aprenda algo novo ainda hoje... Que tal começar vendo algum tutorial no Youtube? Sabe aquele curso de desenho, artesanato, ou fotografia? Então... Dentre os milhares de tutoriais disponíveis na rede, certamente você vai achar algum que venha de encontro a algum sonho que estava engavetado dentro do seu coração. 

   A situação no Japão está aparentemente sob controle, mas ainda exige muitos cuidados. Estamos trabalhando e mantendo o ritmo como podemos, mas ainda é cedo para se ter uma perspectiva positiva. Fico em casa nos finais de semana e saio apenas para fazer o que acho ser necessário. Vez, ou outra vou jantar com a minha família, ou vou ao mercado para fazer compras. O tempo para mim é algo muito precioso, e tento usá-lo de maneira racional. 

   Tenho uma pilha de leitura que não baixa já faz algum tempo, muitos livros para ler, ainda mais agora que faço parte de um ilustre grupo de escritores: Os Amigos da Escrita, fundado pelo escritor Leandro de Melo Pereira. Aos poucos, estou conhecendo o trabalho de cada um e já estou fascinado pelas obras e pelos seres humanos por trás de cada uma delas. Também estou tendo a chance de divulgar o meu trabalho e vendo meus novos amigos me trazendo seus feedbacks maravilhosos para que eu possa aprimorar ainda mais o meu estilo. Como dizia Napoleon Hill, para potencializar o poder de realização, temos que unir forças com aqueles que tem objetivos em comum, o que ele chamava de Mastermind.

   Escrevo desde os dez anos e muita coisa se perdeu nesses quarenta anos que se passaram desde que rabisquei meus primeiros ensaios. Nos últimos anos tive uma crise forte de depressão e fiquei estagnado por quase uma década. Felizmente o Universo nos confronta com aquelas pessoas cujo entusiasmo nos contagia e nos estimula a reacender a velha chama. Mergulhei de cabeça novamente em novos e velhos projetos e uma gigantesca onda criativa surgiu diante de mim... Sinto que se eu não galopar essa onda como se fosse um animal selvagem, talvez eu nunca mais veja outra onda igual a essa e, para tanto, tive que parar até as minhas classes de Inglês.

   Em dezembro do ano passado consegui concluir O IMORTAL e já publiquei a versão e-book no site da Amazon.   https://www.amazon.com.br/imortal-Denis-Nishimura-ebook/dp/B08XNM1B88/ref=pd_rhf_gw_p_img_1?_encoding=UTF8&psc=1&refRID=H13C7FT4E40G34WTGWMY

Já estou conversando com algumas editoras e acredito que em breve teremos também o livro físico. Nesse interim, reescrevi OBAKE, o Japão mal-assombrado que já havia sido publicado em livro físico e que agora tem a sua versão e-book também pelo site da Amazon.



https://www.amazon.com.br/Obake-Jap%C3%A3o-mal-assombrado-Denis-Nishimura-ebook/dp/B091687SF5/ref=pd_ybh_a_3?_encoding=UTF8&psc=1&refRID=76WFXM2H925E7CDK3APP

A continuação do livro OBAKE sairá em breve na versão O CONTADOR de HISTÓRIAS, baseado no canal do Youtube OBAKE, O CONTADOR DE HISTÓRIAS e contará com vários contos ambientados no Japão. https://www.youtube.com/channel/UCnywHsQ_ID1Np46yb2Vcedg Com o roteiro escrito por mim e a arte insana do desenhista Alexandre Funashima, que aliás, é o artista que faz as capas dos meus livros!

Quer mais? Pois bem... Já adiantando o que vem por aí, em breve o canal terá a temporada Obake, o Contador de Histórias - Temporada Brasil e que terá em sua sequência um livro escrito também em parceria com o Alexandre Funashima, baseado em contos ambientados no Brasil. 

E por falar em leitura, como já disse, a minha pilha de coisas para ler aumentou bastante, pois além dos livros que já havia comprado, ainda fiz a aquisição de um Kindle (não sei como vivi sem isso até agora), o que me possibilitou adquirir mais material de leitura. Tenho algum material dos autores do Grupo Amigos da Escrita e tenho que dizer que estou ansioso para ler tudo.

Nesses dias tive uma grata surpresa ao ler o livro do escritor Leandro de Melo Pereira RUA NOVE, primeiras aventuras. Um livro que me transportou de volta ao meu tempo de escola, com muitas aventuras e traquinagens típicas de crianças em idade escolar. Leandro fala sobre amizade, sobre sinceridade, sobre família, amor e companheirismo. Tudo isso mesclado com uma trama leve e envolvente que faz com que muitas pessoas da minha geração e também das novas gerações fiquem encantadas. É uma verdadeira enxurrada de memórias afetivas que vai nos fazer resgatar as nossas próprias lembranças. Li, gostei e recomendo!


https://www.amazon.com.br/Rua-Nove-Leandro-Melo-Pereira-ebook/dp/B09234BVTT/ref=pd_ybh_a_3?_encoding=UTF8&psc=1&refRID=SBQCPJPCN1NDA9R1CRAG

sábado, 14 de novembro de 2020

Atarefado, mas fazendo o que gosto!!!


 Já faz um mês que eu e o designer Alexandre Funashima criamos o Canal "OBAKE, O CONTADOR DE HISTÓRIAS"... Fiquei surpreso com os resultados e muito feliz com a recepção que os internautas tiveram do nosso trabalho. 

Para quem ainda não conhece o nosso canal, segue o link abaixo:

https://www.youtube.com/channel/UCnywHsQ_ID1Np46yb2Vcedg

Surgiram algumas críticas, um monte de perguntas e algumas pessoas até expressaram a vontade de colaborar com o canal com suas experiências vividas com o sobrenatural. Neste um mês de atividade, a minha vida e a do Alexandre acabaram por ficar mais corridas, visto que houve um acréscimo de compromissos na nossa agenda, mas tanto eu, quanto ele estamos desenvolvendo esse projeto com muita paixão, carinho e entusiasmo. 

Particularmente não é só um hobby, mas a minha forma de extravasar a minha necessidade de escrever, criticar e opinar sobre a vida, sobre o mundo e sobre a sociedade. Sei que estamos flertando com o suspense e com o terror de maneira central nesses contos, mas o Contador de Histórias também fala sobre todos os sentimentos e emoções humanas de maneira crua e visceral trazendo para o internauta muitas situações e sensações familiares. A arte fantasticamente insana do Alexandre completa a narrativa de forma perfeita de maneira que leva o espectador para dentro dos contos.

Os internautas nos trouxeram várias questões que eu gostaria muito de responder. Escolhi três perguntas e vou responder aqui, sem dar spoilers sobre a saga que será lançada em breve:

"O Contador de Histórias é a personificação da morte?"  Não. Na verdade, ele é um penitente do Limbo que precisa contar muitas histórias para pagar a sua dívida com o Universo. Ele é uma testemunha relativamente passiva da vida dos seres humanos que conta histórias para quem quiser ouvir e aprender alguma coisa com elas.

"O Contador de Histórias parece uma entidade do mal." Não necessariamente. Ele tem essa aparência porque está penitenciando no Limbo. Se as pessoas quiserem ajudá-lo em sua redenção, basta estarem dispostas a ouvir suas histórias e aprender algo com elas. Em todos os contos sempre haverão coisas contadas de maneira implícita e sutil.

"O nome dele não deveria ser O contador de estórias?" Existem dois lados que precisam ser explicados para que o espectador entenda a forma que escolhemos de escrever o nome dele. Primeiramente, a temporada que estamos lançando no Youtube é adaptada do livro OBAKE, O JAPÃO MAL-ASSOMBRADO e que foi escrito baseada em supostas experiências pessoais. Num segundo momento, no universo do Contador de Histórias, ele assiste à evolução da humanidade e narra seus contos baseados nessa realidade.

Bem, meus amigos... Já lançamos três episódios e ainda tem mais, muito mais vindo por aí. O que queremos com esse projeto? Simplesmente duas coisas: Usufruir do direito de exercitar o que gostamos de fazer... Eu amo escrever e o Alexandre adora desenhar, então unimos nossas habilidades para trazer algo divertido para as pessoas. Algo que pode mexer com a imaginação, com as impressões e com  as opiniões da sociedade. Também queremos divulgar o nosso trabalho. Eu como escritor e o Alexandre como designer e professor de arte.

Para quem ainda não assistiu os episódios que já foram lançados, vou postar os links abaixo:




O meu muito obrigado a todos os amigos e simpatizantes do nosso trabalho por todas as opiniões, por todas as mensagens de força e carinho e pelo apoio!!!






sábado, 17 de outubro de 2020

UM NOVO DESAFIO EM MINHA VIDA!!!


 Em 2012, exatamente 8 anos atrás, durante o meu estágio para a faculdade de Letras na Escola Alegria de Saber, na Unidade de Hekinan, conheci o professor de artes e desenhista Alexandre Funashima. Conversamos a respeito de muitas coisas: arte, literatura, música e comics. Eu havia acabado de lançar o meu livro “OBAKE, o Japão mal-assombrado” e estava com outros projetos em andamento. O Alexandre se interessou pelo meu material e eu lhe enviei alguns fragmentos de um épico que eu estava escrevendo na época: “Guerra dos Deuses”

Ele parece ter gostado do que leu e despretensiosamente ambos, cogitamos unir forças para criar algo reunindo as nossas habilidades. Eu, particularmente sou fã da arte fantástica que ele consegue desenvolver, seja no papel, seja em arquivos digitais e alguns de seus trabalhos já falam por si mesmos!!!





 O tempo passou, eu terminei a faculdade e nós tomamos caminhos diferentes... Depois de uns anos, estávamos cursando Inglês na mesma turma na Spring School de Kariya. A correria do dia a dia acabou por fazer com que deixássemos o velho projeto arquivado, até que no finalzinho de Setembro passado eu tomei coragem e liguei para o Alexandre. Marcamos um Domingo para que pudéssemos conversar sobre desenvolver uma série de estórias em quadrinhos. E foi aí que ele me apresentou a nova tendência entre os fãs ávidos por comics: o MOTION COMIC. Evidentemente que o formato tradicional de estórias em quadrinhos continuará firme e forte entre os mais puristas, mas o Motion Comic vem de encontro aos anseios e necessidades de uma geração que busca por formatos mais dinâmicos. É uma galera que quer absorver cultura e entretenimento enquanto pega o trem, ou o ônibus para o trabalho, ou para a escola através de um smartphone, ou tablet. Basta um fone de ouvido e conexão com a internet. 




Pois bem, depois de delimitarmos o projeto, eu comecei a escrever as adaptações do livro para o roteiro do nosso primeiro Motion Comic. Gravamos e editamos os áudios iniciais na N&F Studios e em seguida o Alexandre começou a trabalhar nos desenhos e na arte final. A cada fragmento que ele me enviava eu fui ficando cada vez mais entusiasmado!!! Sinto-me feliz de apreciar cada traço, cada detalhe e todo o capricho com que ele tem retratado cada conto.  

Para contar cada episódio, criamos um narrador misterioso, apaixonante e com muita personalidade, cuja origem será contada numa triologia fantástica que lançaremos logo depois de terminarmos a primeira temporada que está com previsão de ter cinco, ou seis episódios totalmente baseados no livro. O Contador de Histórias, apesar de sua aparência assombrosa, é alguém com sentimentos muito humanos e que, apesar de não poder interferir no desenrolar da trama, muitas vezes se envolve emocionalmente com situações repletas de ansiedades e medos, assim como outros sentimentos opostos como carinho, ternura e amor.

Como ele se tornou esse andarilho entre a vida e a morte? Tudo será explicado na triologia que contará a sua origem. 

Arte: Alexandre Funashima


Eu, particularmente estou muito feliz e entusiasmado por ter criado juntamente com o meu amigo Alexandre esse personagem carismático, um pouco perturbado, confesso, mas extremamente enigmático e que tenho certeza vai conquistar muitos fãs.


O roteiro inédito com um texto forte e ousado e a arte incrível do Alexandre Funashima eleva a experiência do Motion Comic (quadrinho em movimento) a um nível que não deixa absolutamente nada a desejar para os bons conteúdos do gênero!!!   

O Alexandre então sugeriu que lançássemos o primeiro episódio no Youtube no dia 31 de Outubro, justamente no dia de Halloween!!!

https://www.youtube.com/channel/UCnywHsQ_ID1Np46yb2Vcedg

https://www.youtube.com/watch?v=kxxvwrTfHik  

https://www.facebook.com/obakecontadordehistorias/


Eu sou suspeito para falar, mas as semanas que trabalhamos exaustivamente para produzir cada episódio, tenho certeza que valerão muito à pena!!!

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Verde, Amarelo e Vermelho

Foto: banco de imagens do Google


VERDE, AMARELO E VERMELHO

Depois da última eleição para presidente o Brasil estava rachado ao meio. Os apoiadores de centro haviam sumido das discussões e a polarização ficara mais aterradoramente crua, agressiva e até irracional por algumas vezes. Vestido com a camisa da seleção brasileira, Agnaldo, bolsonarista ferrenho, já havia decorado todos os argumentos anti-esquerda que lhe vinham à cabeça. Depois do divórcio costumava ocupar sua mente com seu negócio e nas horas vagas criava e compartilhava posts de apoio ao governo nas redes sociais, além de atacar qualquer manifestação de esquerda que aparecesse em sua timeline. Trinta e oito anos, portador de um revólver calibre trinta e oito, ele fazia a pose dos apoiadores da revogação do estatuto do desarmamento simulando uma arma com o dedo indicador. Acostumado com a violência de São Paulo, sua empresa já havia sido assaltada algumas vezes. Estava se preparando para participar de uma manifestação pró governo na Avenida Paulista. Evidentemente ele não levaria sua arma, mas a ideia chegou a parecer-lhe tentadora. Músculos trabalhados por anos de maromba e língua afiada para desacatar qualquer esquerdista cretino que lhe aparecesse pela frente. Para ele, o que importava era lutar contra os grupos demagogos que haviam jogado o país num mar de corrupção e numa crise que parecia irreversível. O Brasil, além de todas as dificuldades que se multiplicavam, ainda tinha que enfrentar a monstruosa pandemia de Corona vírus que havia infectado o mundo inteiro e avançava numa onda gigantesca de medo, dor, sofrimento e morte. Para Agnaldo era seu dever sair para as ruas, mesmo com um vírus assassino entrando furtivamente pelas narinas das pessoas. Os canos dos ônibus e metrôs, normalmente xexelentos, ofereciam suporte para que os passageiros se agarrassem a eles firmemente. Também haviam os botões dos elevadores, os corrimãos das escadas rolantes e os descansos de braço dos diversos assentos disponíveis em todos os lugares. Tudo aquilo era ambiente propício para a contaminação silenciosa e mortífera. Nada daquilo importava para ele, pois ele deveria atender ao chamado do “Messias”. Teria que percorrer um longo caminho, mesmo contrariando normas óbvias de segurança. “Fique em casa” diziam as campanhas, mas o único homem que ousou enfrentar a corrupção e o sistema tinha o seu apoio incondicional, mesmo que houvessem denúncias de supostos envolvimentos de pessoas ao seu redor em esquemas de corrupção, mesmo que ele não fosse bom com as palavras e tropeçasse nelas e atropelasse o bom senso, mesmo que o seu discurso fosse permeado de palavras chulas que normalmente não são usadas em discursos formais, ainda assim, Agnaldo o carregaria nos ombros se preciso fosse. Morador da Zona Norte, ele tinha que pegar o Metrô na Estação Santana, fazer baldeação na linha verde e descer na avenida mais paulista de Sampa.
Michele acordou cedo e tomou o café enquanto assistia ao noticiário matinal. A manifestação que estava programada na Avenida Paulista teria que ser ofuscada por movimentos de esquerda. Ficou na dúvida sobre o que vestir e preferiu uma camiseta baby look preta em sinal de protesto. A polarização havia chegado num nível tão alto de rivalidade que era muito perigoso sair com alguma camiseta de apoio a este, ou aquele partido político. A violência gratuita de Sampa não pede motivos nem licença para te dar um soco no estômago, ou um tiro na cara. A lei do poder paralelo da selva de pedra e concreto é idêntica à savana africana, ou à floresta amazônica, sobrevive quem é mais forte, ou quem sabe ler os sinais de perigo. Os paulistanos parecem estar vivendo em constante conflito entre si, disputando centímetro a centímetro, cada metro quadrado no trânsito caótico das ruas. Apesar de toda a efervescência característica da cidade, a ordem era permanecer em casa. “Stay home” diziam as capas personalizadas de Facebook. Os ônibus e Metrôs lotados não permitiam que se praticasse o distanciamento social. Havia um vírus se propagando entre as pessoas, mas fora aquilo, nada havia mudado. O mesmo empurra-empurra de todos os dias, o mesmo ar sufocante no interior dos trens, pervertidos esfregando-se em passageiras incautas causando constrangimento e nojo. Michele, além de toda a selvageria que enfrentava em cada capítulo de sua agenda diária, ainda achava tempo para ensaiar seus argumentos para desarmar extremistas de direita. Mentalmente simulava discussões e gerava respostas contundentes para quebrar qualquer bolsominion. A mídia falava a todo o tempo sobre lavar as mãos, sobre o distanciamento social, sobre o uso das máscaras e sobre ficar em casa, mas para Michele, aquela era uma luta que não poderia ser ignorada. Era uma luta contra o fascismo que começava a criar uma horrenda forma com carranca e garras afiadas e ela, como patriota e brasileira acima de tudo, tinha o dever moral de se engajar naquele movimento. Naquela altura, não interessava se o grupo que ela apoiava tinha supostamente saqueado os cofres públicos, ou que tivessem feito esquemas despudoradamente promíscuos com construtoras, ou que tivessem enviado recursos preciosos para governos ideologicamente alinhados no exterior. Para ela, a luta contra o fascismo era a causa de maior urgência e colocaria-se na linha de frente se preciso fosse.
Ela partiu da Estação Vila Madalena e seguiu até seu destino. Havia uma grande movimentação na Estação Trianon-Masp, mas Michele não queria chegar sob clima de tumulto e resolveu descer uma estação adiante. Desceu na Estação Brigadeiro onde o movimento de manifestantes era um pouco menos intenso. Alguém tocou uma vuvuzela e ela olhou para trás num misto de susto e indignação. Trombou com um rapaz de certa altura com braços vigorosos. Desculpe, ela disse desconsertada procurando o rosto dele. Tudo bem, ele disse educadamente. No exato momento em que ela percebeu aquela voz familiar, seus olhos se cruzaram e o tempo pareceu ter parado por um instante. Agnaldo? Perplexa, ela olhou naqueles familiares olhos de ébano, como se estivesse tentando achar alguma coisa nas profundezas da alma dele. Agnaldo, até ali carrancudo, sorriu um sorriso que iluminou seu rosto instantaneamente. Nossa, quanto tempo! É mesmo, disse ela. Aquele era um encontro inusitado e, desde que romperam uma década atrás, nunca mais haviam se visto. Começaram a namorar no colegial, depois foram para a faculdade e de repente, o destino os levou para caminhos diferentes. Romper foi o caminho que acharam de comum acordo para seguirem suas carreiras. Era um grande amor e a separação foi dura para ambos. Michele se casou, mas o casamento não durou muito tempo. Agnaldo também havia falhado em sua missão de encontrar sua alma gêmea, mas o destino acabara de pregar uma peça em ambos. Ele estava com a camisa da seleção brasileira e ela bem sabia o que ele estava fazendo por ali. Michele estava com uma camiseta preta e ele suspeitava que ela estava pronta para sair gritando “fora Bolsonaro”. Ele disse que estava indo na Livraria Cultura para namorar as novidades. Quer ir comigo? Podemos parar numa cafeteria e colocar o papo em dia, ele convidou-a com o coração trêmulo e ansioso por uma resposta positiva. Sua paixão por futebol era um álibi para não falar sobre política e aquela situação toda era muito delicada. Qualquer passo em falso e o amor de sua vida o chamaria de “Bozo” e sumiria de sua frente para nunca mais aparecer. Michele sentiu um calor forte no peito e na boca do estômago. Uma sensação deliciosa de estar reacendendo uma paixão que estava há muitos anos adormecida em seu coração. Ela não falaria de política, pois ele poderia chamá-la de “petralha” e sumir de sua vida novamente. Ela vivia na academia e seguindo dietas para manter as curvas, mas a camiseta preta servia para diminuir um pouco mais a sua silhueta. Agnaldo era o amor de sua vida e ela não poderia arriscar deixá-lo escapar por causa de posições políticas. Em seu íntimo, Agnaldo não concordava com alguns posicionamentos do governo. Haviam algumas coisas que ele achava que estavam certas, mas pela primeira vez, admitiu para si que o presidente talvez estivesse errando em outras. Lembrou-se dos méritos dos governos anteriores e pôs-se a refletir se havia a possibilidade de desenvolver uma linha de pensamento onde houvesse um consenso sobre quais os melhores rumos que a Nação deveria tomar. Michele sabia que Bolsonaro representava o conservadorismo, a inflexibilidade de opiniões e a dureza em suas próprias declarações, mas lá no fundo de seu senso crítico, começou a aceitar secretamente a ideia de que ele talvez fosse o início de uma grande mudança após anos de tentativas de reerguer o país. Ambos, por amor, tiveram que rever suas opiniões, mas não mais falaram de política. Cada qual guardava sua opinião para si e perceberam que o que realmente importa não é a direita, ou a esquerda, mas as pessoas, independentemente dos seus rótulos.
Agnaldo e Michele se casaram e vivem relativamente felizes, com os percalços de percurso comuns a todos os casais. Depois que foram morar no interior, sumiram do mapa, ou melhor, vivem em Ilha comprida. Não se sabe o que fazem para sobreviver, mas acredita-se que devem estar na beira da praia, sentindo a brisa fresca do mar, tomando cerveja gelada, água-de-coco e comendo coxinha de mortadela, porque para eles o amor é a coisa mais importante. Convivem bem um com o outro, respeitando-se mutuamente sem abrir mão de seus próprios valores.

sábado, 25 de março de 2017

Elis

Foto: Banco de imagens do Google

Morando no Japão, já temos muitos canais para receber as notícias de um Brasil tão distante para nós. Podcasts, rádios online e o Facebook, que não é uma fonte tão confiável, mas nos traz as notícias, muitas vezes mais rápido do que a própria mídia. Ainda não aderi ao NETFLIX, mas acho que se o Youtube não melhorar tão cedo, vou acabar assinando. Morando aqui, recebo as notícias das estreias no cinema e me bate uma certa saudade de poder ir ao cinema no Brasil. Não, hoje não quero falar do escândalo da Operação Carne Fraca, do caos que ficaram as exportações, da Lava-jato, ou de qualquer outra desgraça que tenha bombardeado nossas cabeças nesses tempos tão turbulentos. Hoje quero falar do prazer da apreciação da sétima arte e dividir as minhas impressões. Como todos sabem, a proposta desse blog é mostrar a visão de alguém que vive nesse eixo Brasil-Japão, e falar das nossas angústias, alegrias, dificuldades e do nosso cotidiano. 
Já fazia muito tempo que eu queria ver "ELIS, o filme" e esperei com muita ansiedade até que alguma alma caridosa postou ele no Youtube. Imagem e áudio com qualidade é tudo para quem quer assistir a um bom filme, mesmo que pelo Youtube. Bem, o Chromecast instalado, comandos pelo telefone funcionando direitinho e pá... Joguei a imagem da internet diretamente para a televisão. 
Vivendo nessa época em que pouca coisa boa é produzida, não é à toa que as pessoas sintam uma nostalgia imensa. Elis foi daquelas artistas marcantes e talentosas que se tornaram ícones da história da nossa música. Para as novas gerações que não a conhecem, vale à pena conferir seus trabalhos e assistir ao filme. Meu Deus! Que prazer imenso de ouvir aquela voz durante todo o filme. Não vou ficar aqui largando spoilers, mas tenho que dizer que a cada fase da vida da cantora, as músicas foram se encaixando como uma luva durante o filme. "ELIS" retrata o Brasil na época da Ditadura Militar, mostra as roupas usadas na época, os carros e o palavreado que as pessoas usavam. Revela o outro lado da artista, a pessoa por trás da cantora. O ser humano, com todas suas alegrias, paixões e frustrações. Uma mulher guerreira, talentosa e fascinante. A atriz Andreia Horta dá um show de interpretação. Além da semelhança física e da caracterização, Andreia Horta ainda faz todos os trejeitos e sorri escancaradamente como Elis fazia em suas aparições. O filme talvez peque por falta de mais detalhes sobre a vida da cantora, mas isso não tira os seus méritos e nem a beleza da história. Acho que devo estar mais sensível do que antes, pois me peguei emocionado por resgatar essa artista tão fantástica. Nessas horas sinto vontade de dizer para as novas gerações "prestem atenção nessa artista", mas sei que gosto é gosto e que as diferenças devem ser respeitadas. Elis, inegavelmente nos deixará saudade e um belo legado artístico. Quando ela morreu, me lembro que muitas pessoas teceram críticas quanto ao abuso de drogas, mas a maioria das pessoas não sabia de seus problemas emocionais e de seu processo depressivo. 
O filme é um grande presente para os fãs, uma aula para os mais jovens e uma belo tributo à sua memória. Assisti, AMEI e recomendo!!!     

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Feliz Ano Novo (com velhas e dolorosas lembranças)


Sai ano, entra ano e muitas coisas ainda continuam mal resolvidas na minha cabeça e no meu coração. Final de ano é sempre uma época nostálgica para mim, e acredito que também para a maioria dos brasileiros que vivem no Japão e que deixaram metade dos seus laços no Brasil. Amigos, filhos, tias, tios, primos, pai, mãe... De todos, um, em especial, me toca ainda com sua presença vívida, mesmo após pouco mais de dois anos de sua partida. Até hoje, ele é uma figura controversa e, atualmente, eu, mais do que ninguém posso falar que o conheci de perto. Dedicou sua vida à pratica da caridade e isso é um dos fatos notáveis de sua história, visto que era pobre e dispunha de poucos recursos. Era alegre, brincalhão e me lembro que várias pessoas que moravam longe se dispunham a viajar algumas horas para passar uma tarde alegre com ele. Ele sempre tinha um conselho, uma palavra amiga e um riso contagiante. Confesso que o amei e o odiei muitas vezes e que tenho consciência de que, de dentro de sua ignorância e singeleza ele fez o melhor que pôde. Mas não é só porque ele morreu que vou colocá-lo num pedestal e transformá-lo em santo. Talvez um dia, eu possa escrever um livro com toda a verdade sobre a sua vida. 

No começo da década de 1970 meu padrasto fugiu com minha mãe e isso acabou por fragmentar duas famílias. Não posso julgá-los se estavam certos, ou não. Talvez fossem apenas duas pessoas fugindo em busca da felicidade. Talvez fossem duas pessoas que tiveram a coragem de assumir que se amavam e assim, se predispuseram a aceitar a chuva de pedras que a sociedade lhes infringiria. De qualquer forma, eles formaram uma nova família. Minha mãe me levou para ser parte dela. Meu padrasto levou o Fabinho e a Solange. Mais tarde nasceu o Toninho, o caçula. Nossa história daria uma novela. Talvez eu pudesse dar o título de Éramos Seis. No final das contas, todos pagaram um preço muito alto por uma felicidade que não existiu. A ex-esposa do meu padrasto ficou na rua com três crianças para cuidar, meu pai entrou em depressão, teve um derrame e morreu anos após a separação, minha mãe e meu padrasto tiveram poucos momentos de paz e tranquilidade. Quanto a nós, os filhos da nova pseudo-família, vivemos num ambiente baseado no puxa-tapetes, onde a concorrência, a mentira, a deslealdade e a pirraça eram elementos que usávamos uns contra os outros. Não bastasse viver nesse inferno, eu, o Fabinho e a Solange trabalhamos duramente, assumindo responsabilidades que hoje me assustam e que eu nunca cogitaria submeter meus filhos. A Solange já em tenra idade, uma criança que trabalhou desde os seis anos lavando, cozinhando e passando sofreu tantas imposições em sua vida, tantas limitações de liberdade que não suportou tanta humilhação dentro de casa, cometidas pela minha mãe e pelo pai dela, que acabou saindo de casa. Eu, muitas vezes, tive vontade de cometer suicídio, pois qualquer coisa era melhor do que viver naquela família opressora e protecionista. Meu padrasto mantinha um discurso de trabalho, cooperação e igualdade entre os "irmãos", mas eu, como o único que não era seu filho senti na pele o gosto amargo da discriminação e da tortura psicológica. 

O tempo passou e nós crescemos. Mentalmente, espiritualmente e psicologicamente. Quanto aos meus irmãos eu não posso falar, mas eu ainda carrego sequelas psicológicas de uma época de dureza, maus tratos e críticas ácidas de um homem que não tinha base intelectual para liderar uma família tão heterogênea. Às vezes, deito a minha cabeça no travesseiro e durmo. Minha mente me transporta para o passado e eu me vejo novamente sob o julgo dele. Já acordei várias vezes chorando e percebo então que a mágoa ainda não passou. Só adormeceu lá no fundo do meu subconsciente. Ele era um homem mau? É claro que não! Como um homem pode dedicar a vida a fazer o bem e ser mau? Prefiro acreditar que ele era apenas um homem mal esclarecido, preconceituoso, rústico e ignorante com a dura missão de sustentar uma família com quatro filhos onde eu não pertencia à sua prole. Prefiro pensar que ele me discriminou pois, de maneira involuntária não soube disfarçar o seu protecionismo para com seus filhos legítimos. 

Hoje, muitos anos depois de tudo, o Natal e o Ano Novo ainda me fazem lembrar deles. Se eu amava meus pais? A resposta é sim! Apesar de toda omissão por parte da minha mãe e apesar de toda maldade por parte do meu padrasto, eu os amava e os respeitava. Meus irmãos de criação também sofreram, de forma invertida, tudo que eu passei. Quando meu padrasto faleceu em Agosto de 2014, uma enxurrada de lembranças escapou do meu subconsciente. Entrei em depressão e tive diversos problemas na minha vida pessoal, além dos que eu já enfrentava naquela época. Perdi muitas coisas importantes (não estou falando de coisas materiais) e foram perdas irreparáveis. 

Bem, ou mal, eles foram os pais que eu tive e seguindo um preceito bíblico, sempre os honrei e os respeitei apesar de tudo. Talvez, algumas pessoas dirão que sou ingrato por revelar esse triste lado da história da minha família, mas tenho convicção de que meu padrasto não fez favor algum em ter me criado, pois como dizia um primo dele "quem quer a choca tem que cuidar dos pintinhos também" e acho que se ele queria ter a minha mãe ao lado dele, nada mais honroso do que criar o filho que ela já tinha. De certa forma, fomos uma família e, aos olhos das pessoas, parecíamos felizes, mas somente quem sobreviveu a tudo aquilo pode dizer se éramos felizes, ou não. 
Sinto a falta deles e espero em breve reencontrá-los para dar-lhes um abraço fraternal e lhes perguntar os porquês de tudo aquilo que passamos.
O que me resta agora? Socar essas lembranças nos porões do meu subconsciente, trancá-las, ser forte e seguir adiante.