
Quando cheguei ao Japão em Março de 1991, sabia que ia passar por algumas dificuldades e que o idioma seria uma delas. Nihongo para mim, naquela época era uma barreira que fui aprendendo a transpor. Fui criado longe das tradições japonesas e minha mãe achou por bem que eu aprendesse a falar português para que o meu desempenho na escola não fosse comprometido. Olhando para trás e analisando o panorama dos nikkeis hoje, vejo que ela agiu com certa sabedoria. Para mim a atitude dela faz sentido. Quando eu era criança, a minha mãe nem sonhava que eu iria por os pés na Terra do Sol nascente. As pequenas coisas da cultura japonesa que aprendi foram os hábitos de tomar missoshiru, comer tofu, arroz com ovo cru e shoyu e dizer gochisousama depois da refeição. Itadakimasu eu fui ouvir no Japão. Lembro-me dela falando da Batian e do Ditian. Das músicas que ela cantava. Do Hino Nacional do Japão... A música Aka Tonbo as vezes ecoa na minha memória como se ela estivesse cantando para mim.
As palavras que ouvi muito dela quando eu era criança foram Abunai e Urussai. Quando tinha 17 anos comecei a treinar Karate. Aprendi a contar e muitas outras palavras que me foram úteis na minha vida no Japão. Tive a sorte de ter um grande amigo japonês que me ensinou a conversar, ensinou a ler Katakana e hiragana. Indicou-me livros e com o passar do tempo fui começando a ficar independente. Naquela época não haviam muitos intérpretes nas fábricas e a gente tinha que se virar. Eu trabalhava com muitos japoneses e tinha um relacionamento muito bom com eles. Com o passar dos anos fui adquirindo conhecimento e busquei estudar a parte escrita também. O fenômeno dekassegui continuou e a comunidade de brasileiros no Japão aumentou exponencialmente. Notei que muitos brasileiros incorporaram muitas palavras corriqueiras de nihongo nas conversas em português. Hoje é muito comum a gente ouvir frases do tipo: “Vou ao Konbini comprar um Bentou porque amanhã estarei de Hirukin” e outras coisas.
Esse hibridismo tem suas pérolas em outras frases do tipo: “Estou Tsukaretado” e “Eu vou levar os Komimonos, quem vai levar os Bebimonos?”
Hoje consigo me expressar com relativa desenvoltura, mas os termos técnicos (Sen-mon-go) ainda me trazem certa dificuldade. Quando trabalhava em fábrica, fiz muitas traduções e posteriormente atuei por cerca de dois anos como intérprete numa empreiteira. Nesse tempo notei que existem vários tipos de intérpretes e vários tipos de dificuldades.
Existem aqueles intérpretes que falam e entendem a língua portuguesa com clareza, mas que se atrapalham no Japonês. Existem outros que falam e entendem o Japonês muito bem, mas o Português deixa a desejar. Existem ainda muitas outras variantes dessas duas primeiras.
Hoje ainda me lembro das dificuldades iniciais. Sempre que alguém precisa de uma ajudinha no Nihongo eu me predisponho a ajudar, pois nem todo mundo fala japonês por aqui. Mais que uma forma de interagir com os japoneses, Nihongo para mim é um instrumento que uso para auxiliar os meus compatriotas.
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