quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Carta para Akiyo

Imagem: Banco de imagens do Google (Nosso Lar)

Carta para Akiyo
Querida mamãe, como vai? Hoje, dia 14 de Fevereiro faz 18 anos que você foi embora e deixou um grande vazio dentro do meu Coração. Gostaria muito de ter notícias suas, saber se você está bem, mas a humanidade ainda não encontrou um meio efetivo para estabelecer comunicação entre os nossos mundos sem que sejamos vítimas de charlatães e pessoas de má fé... Acho que você deve estar bem. Melhor do que eu, creio... Apesar de toda a luta que tenho dentro de mim para conter essa tristeza, quando chega o Valentine's day as lembranças ainda emergem com muita força do meu subconsciente. Quando você foi embora, experimentei duas sensações ao mesmo tempo: um certo alívio pelo fim do seu sofrimento e uma tristeza imensa pela nossa separação e pelas circunstâncias em que você partiu...
Gostaria de ter te trazido ao Japão para que você conhecesse a terra dos seus ancestrais. Para que você pudesse enfim se encontrar com a cultura dentro da qual foi criada. Na época em que você estava entre nós, achei que o dinheiro seria melhor usado te proporcionando bem-estar... Hoje vejo o quanto eu estava enganado. Uma viagem dessas seria uma experiência única em sua tão breve e sofrida vida. Hoje acho que não te amei o suficiente... Não te mimei o suficiente... E não fui sábio o suficiente para tomar as decisões mais acertadas. Hoje sei que engoli muito desaforo e fiz vista grossa para tantas coisas em nome do seu bem-estar. Desculpe mamãe, mas eu só tinha vinte anos quando tive que carregar a família. Espero que me perdoe. Quando você foi acometida pelo derrame, quiseram me culpar pela tragédia. Logo eu que sempre te apoiei e estive ao seu lado, mesmo distante... Queria voltar no tempo para te dizer o quanto te amava... Queria voltar no tempo para não ficar calado diante de tanta besteira que me foi dita... 
As pessoas que me cobraram tanto pelo seu bem-estar foram as primeiras a te abandonar. Ainda hoje me lembro que estávamos em não mais do que umas dez, ou quinze pessoas para nos despedir de você. Lembro me que quando toquei as suas mãos geladas, meu mundo caiu sobre a minha cabeça e o chão sumiu sob os meus pés... Minha tia Araci estava lá, ao meu lado e apertou as minhas mãos e me olhou com doçura. Sem me dizer uma única palavra, ela me transmitiu muitas coisas... Lembro-me do Tio João que também ficou lá comigo até os momentos finais... essas pessoas que estiveram comigo nos momentos mais difíceis sem querer nada em troca. Lembro-me que o Fabinho, a Rita e o Toninho chegaram no dia seguinte. Havia um ar de tristeza pairando, mas não pude deixar de reparar que o Toninho estava mais preocupado em rever os amigos em Cachoeirinha e Gravataí, do que respeitar o nosso luto. Acho que era a forma dele de fugir daquela realidade.
Alguns dias depois veio a conta dos serviços funerários. Quinhentos reais (no ano de 1996). Nessa hora não sei onde foram parar os filhos que você criou, mas agradeço a Deus por ter me dado condições de sepultá-la com dignidade. Agradeço a Ele também por eu estar no Brasil quando você se foi, pois se eu estivesse no Japão, acho que esse vazio dentro de mim seria bem maior.
Sua neta já está na faculdade e seu neto está um menino lindo e arteiro. Nas veias deles pulsa uma parte do seu sangue e que de certa forma me faz pensar que uma parte de você continua caminhando pelo mundo junto com eles.
As feridas e a dor se amenizam com o tempo, mas não se curam totalmente. Em dias como o Valentine's day, o dia das mães, o Natal e o Ano Novo, essa dor volta com mais força. Hoje é um dia em que eu precisava de um ombro para chorar... De um colo para recostar a minha cabeça e adormecer para esquecer dos problemas mesmo que momentaneamente...
A dor é imensa e intensa e a saudade é eterna. Gostaria muito de te dizer o quanto te amei, mas a sua educação nipônica não me dava espaço para isso, portanto, agora, mesmo tarde quero te dizer que te amei muito e tenho muito carinho pela sua lembrança.
Quero agradecer pelas lições de vida. Por você ter trabalhado tanto para me criar. Por todos os sacrifícios que você fez por mim e sei que do seu jeito você me amou talvez mais do que eu te amei. Hoje olhando para os meus filhos eu entendo tudo isso.
Obrigado mãezinha por tudo. Fique na companhia do Pai Maior.
Do seu filho que nunca te esquece,
Jun.

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