"A humanidade já não me supreende..." Poucas pessoas podem dizer isso e eu definitivamente não sou uma delas. As boas mulheres da China - Vozes escondidas, é uma leitura difícil de digerir, que causa repulsa, indignação e assombramento. Apesar de ser um livro não ficcional, a narrativa é muito bem construída e chega a ser até poética em pontos específicos, mas isso não tira a crueza de tudo o que é relatado na obra.
No livro, Xinran descreve a vida do povo chinês no cenário de um país tomado pela Revolução Cultural, mas não se engane. Esse rótulo é só um nome bonito para designar o apagamento do que o Partido (comunista) chamava de extirpar os costumes burgueses sa sociedade. Pessoas que trabalharam para companhias estrangeiras ou que tivessem algum histórico de contato com elas eram consideradas subversivas e anti-revolucionárias. Intelectuais foram mortos, livros foram queimados e muitas pessoas foram perseguidas, oprimidas e marginalizadas. A imprensa ficalizava tudo oque iria ser veiculado nos meios de comunicação e o Partido censurava o que não fosse conveniente. Nesse ambiente caótico, de profundas transformações, mulheres e crianças se tornavam mais vulneráveis. Não sei porque, mas vejo uma semelhança muito grande com o que aconteceu no Brasil com a ditadura militar.
Por trás de cada relato, uma história de abandono, de violência, de abuso e, invariavelmente, de injustiça. Os relatos colhidos pela autora só puderam ser publicados quando ela resolveu ir para a Inglaterra. Um livro extremamente chocante e o que mais assusta é que todos os relatos aconteceram há poucas décadas. Um dos trechos que mais me sufocaram foi a parte em que a autora visita um vilarejo isolado chamado Colina dos Gritos, onde as pessoas não tem acesso à informação, a água é escassa e as condições de vida, igualmente ao lugar, são precárias e primitivas. Fico me perguntando quantos lugares afastados e atrasados (inclusive no Brasil) ainda devem existir por aí, mundo afora, com pessoas, especialmente mulheres e crianças sendo literalmente usadas como objeto e moeda de troca.
Um livro para ler e perder o sono entre reflexões perturbadoras. Recomendo a leitura somente para pessoas analíticas e que não sejam muito sensíveis a todo e qualquer tipo de violência.










