sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Novos nomes para velhos problemas

Foto: Banco de imagens do Google
As vezes tenho a sensação de que caí nesse mundo de pára-quedas. Fui inserido numa família de irmãos heterogêneos. Minha mãe, quando foi viver com o meu padrasto tinha a mim como filho de um casamento anterior. Eu tinha quatro anos na época. Meu padrato trouxe um menino quatro meses mais velho que eu e uma menina um ano mais nova. Posteriormente, meu irmão caçula nasceu. Ele era meu meio-irmão por parte de mãe e meio-irmão dos outros por parte de pai. Numa família de irmãos tão diferentes, não é de se surpreender que vivíamos num inferno. Em muitos momentos, não vivíamos, mas convivíamos uns com os outros. A minha vida em especial, era um tormento. Muitas vezes me senti um intruso naquela pseudo-família. Para as pessoas de fora, meu "pai" como eu sempre o chamei, nos tratava com igualdade. Essa era a filosofia que ele demonstrava. Essa era a imagem que ele passava... Nos bastidores, porém, a amarga realidade era bem diferente. Não é preciso surrar uma pessoa para marcá-la pelo resto de sua vida. Basta torturá-la com palavras e fazê-la sentir-se a mais inferior das criaturas. Pegue uma criança de quatro anos e jogue-a, indefesa no meio de outras. Humilhe-a, manipule situações onde todos se voltem contra ela. Faça-a crescer com a idéia de que ela é incapaz. Pronto. Dessa receita, você pode criar um monstro, ou uma pessoa com sequelas psicológicas para o resto da vida. Depois que meu irmão caçula nasceu, a minha vida tornou-se um suplício ainda maior. As coisas eram todas voltadas para ele. Ao mínimo chilique que ele tinha, nós éramos punidos. Tínhamos que cuidar do pestinha e aguentar todas as suas malcriações. Minha mãe criou-o dentro de uma redoma de vidro. Ele cresceu arrogante e egoísta. Hoje, infelizmente ela não está entre nós para ver o resultado de todo aquele mimo do qual ela me negou uma fagulha, mas que derramou abundantemente sobre ele.
Para mim, receber palavras como "burro, idiota, desleixado, vagabundo, incapaz" chegou a ser normal. Eu recebia tudo com certa resignação, afinal, como disse a minha mãe certa vez: "conforme-se, o seu santo não é mais forte do que o deles". Era muito ruim ser humilhado dentro de casa, mas era pior ainda ser humilhado diante das pessoas de fora. Dos amigos do meu pai, dos colegas de escola... Hoje tenho plena certeza de que não sofria de nenhum complexo de perseguição. Lembro-me claramente de todas as hábeis manobras que meu pai usava para me massacrar.
Paralelamente a todos os percalços domésticos, ainda tinha a escola rural onde estudei. Na época em que entrei lá, era o único descendente de japoneses. Ouvi vários comentários do tipo: "Você enxerga com esses olhos rasgados? Que coisa feia esse moleque, você nasceu do lado avesso? Por que você não volta para a China? Você não passa de um plantador de verduras!!! Volta para a sua terra, seu FDP!!!" Isso tudo somado aos diversos apelidos que me davam: " Chinês, japonês, japa, japoronga, amarelo, fu-manchu, jaspion..." Chamavam-me de tudo, menos pelo nome. Muitas vezes, quando não podiam me ferir com palavras, faziam aquele clássico gesto de puxar os olhos com os indicadores, fazendo uma careta para me caricaturar.
Sentia-me desamparado, pois se reclamasse, as outras crianças me dariam uma surra. Em casa, a única pessoa que podia me defender, fazia vista-grossa para as injustiças do meu padrasto.
Sem orientação e sem apoio, em muitos momentos senti vontade de dar fim a minha vida...
Para a minha "família" aquilo que eu hoje reconheço como depressão, para eles não passava de "frescura." Hoje muito se fala de BULLING. Na minha época já existia, mas a gente sofria muitas vezes calado, sem auxílio, sem defesa e sem orientação.
No ginásio conheci um anjo... Sabe aquelas pessoas que entram na sua vida, e te mostram que você é tão gente, tão importante e tão capaz quanto qualquer outra pessoa? Meu professor de Português. Sua simplicidade escondia a sua extensa bagagem cultural e sua sabedoria. Ele talvez tenha sido a primeira pessoa que me compreendeu como eu precisava, que me mostrou que eu não era inferior a ninguém... Me instruiu na sua matéria, mas também me mostrou o caminho para a vida. Acho que se não fosse ele e seus ensinamentos, talvez eu hoje fosse uma vaga lembrança do passado. Ele foi um anjo que me estendeu a mão quando eu estava na quinta série, mas somos amigos até hoje. Termino o texo por aqui... Acho que ainda não consegui exorcisar os demônios do passado e as lágrimas me impedem de prosseguir redigindo.

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